Mês: julho 2014

Contato humano

Tenho dificuldade com títulos de texto. Nunca me vem à mente uma expressão que resuma, perfeitamente, o que estou escrevendo. Seria mais fácil se fosse um roteiro de novela das oito. Aí colocava um alguma-coisa-família e pronto. Mas como não é (ainda bem), espero descobrir um bom título para este texto enquanto ele se projeta na tela do computador.

Mas sobre o que eu queria falar mesmo? Ah, sim, outro dia me deparei com uma foto de um casal, recém-casados, a moça eu conheci há um bom tempo. Em outra ocasião descobri que um conhecido iria se tornar pai. E experimentei uma estranha sensação quando descobri que uma ex-colega havia nos deixado pra sempre. Quem me mostrou tudo isso? A Internet, por intermédio das controversas redes sociais.

Fico feliz com a felicidade dos outros, ainda que não seja alguém próximo. Ou mesmo que seja um desconhecido. Me sinto bem, por exemplo, quando vou tirar fotos 3×4 (não por isso, obviamente) e vejo na vitrine, expostas, fotos de pessoas que jamais vi, mas que naquele instante registrado pelas lentes do fotógrafo, expressaram em seus olhares uma alegria genuína, ímpar.

Também fico triste pelas pessoas. Confesso que a sensação de dor, de angústia, solidão e medo me atraem ainda mais que a euforia. Talvez porque, quanto mais sou capaz de compreender essas sensações, mais me sentirei preparado para suas chegadas. Mais importante: me ajuda a descobrir como fazê-las partir.

Entretanto, é muito mais difícil conhecer o “lado negro” das pessoas, uma vez que, num claro mecanismo de auto-defesa, nós seres humanos escondemos nossas fraquezas num baú velho e pesado da mente, revelando-as somente para aqueles que possuem uma cópia da chave: família e amigos.

Com o advento das redes sociais, nos acostumamos a ver o dia-a-dia dos nossos amigos mais próximos, como num reality show produzido pelo próprio Zuckerberg e dirigido por nós mesmos. A questão é que, como ele é editado para mostrar apenas os bons momentos,  raramente se faz necessário um ombro amigo virtual.

Sinto muita falta de um simples “como cê tá?”, para que eu possa, sem filtros ou edições, dizer como eu me sinto de verdade. Expor meus medos e minhas angústias, me sentir vivo! E pra isso nada melhor que saber que há pessoas que se importam conosco, cujas vidas influenciamos. Dói demais se sentir só. A solidão é colega de quarto da morte.

Precisamos de menos likes e mais euteamos, menos posts e mais paposdebuteco. Precisamos mais de… de…

Contato humano. É isso! Acho que dá um bom título.

Para Rússia Com Amor

Ela chegou desacreditada, tal qual Susan Boyle ao se apresentar no palco do Programa Raul Gil bretão. E assim como a cantora, a Copa do Mundo no Brasil surpreendeu a todos, dentro e fora das quatro linhas.

Confesso que fui um dos críticos. Usei o #imaginanaCopa em alguns dos meus inúmeros posts chatos, amaldiçoei a FIFA pelas próximas 327 gerações e até pensava em torcer contra a seleção após cada entrevista coletiva do Felipão (e que nem chegaram perto do surrealismo da última).

As críticas não eram infundadas. Estádios nascidos grandes elefantes brancos, como Arena Amazônia, Arena Pantanal e o Mané Garrincha reformado; outros sem necessidade, como Arena das Dunas em Natal e Itaquerão (opa, eu disse Itaquerão? é Arena Corinthians, desculpa, Andrés). As obras de infraestrutura, legado para o povo depois que a Copa se for, hoje são tão reais quanto a possibilidade da Inglaterra ser campeã do mundo. Havia (há) tudo isso e muito mais e o povo brasileiro ainda acrescentou mais uns vinte centavos, gerando uma série de manifestações que chegaram a ameaçar a Copa das Confederações e, por isso, causar ainda mais temor pela realização da Copa do Mundo no país.

Subestimamos o poder de uma Copa do Mundo.

Embora todos aqueles problemas não desaparecessem com o pontapé do exoesqueleto, quando a bola rolou após o apito inicial de São Nishimura a grande maioria compreendeu realmente o que era sediar uma Copa do Mundo. Se ela não era perfeita como todos gostaríamos que fosse, a culpa não era dela, mas sim de seus pais, FIFA e Governo, sempre discutindo sobre de quem seria a culpa por uma criança tão indesejada, a ponto de ameaçarem até o divórcio algumas vezes.

No tapete verde, dificilmente outra Copa proporcionou partidas tão emocionantes, cheias de gols e surpresas. Parecia às vezes um episodio de Game of Thrones, já que tivemos personagens importantes morrendo precocemente, como Espanha e Itália. Sem falar no grande protagonista, o Brasil, o anfitrião massacrado de maneira histórica pelo gigante germânico (quem conhece a história sabe exatamente que personagem ele seria). O que dizer ainda de Costa Rica campeã do “grupo da morte” e eliminada nas quartas-de-final invicta?

Pelas ruas, o que se viu foi uma festa interminável dos estrangeiros que aqui pousaram, embalados pela embriaguez causada pelo calor do povo brasileiro (ok, algumas garrafas de cerveja também). O mundo abraçou o Brasil e sua Copa, assim como ficamos felizes até mesmo em ver os argentinos zoarem com a nossa cara. Todos chegaram e partiram em voos com quase nenhum atraso, os transportes públicos atenderam bem (tivemos feriado em dias de jogos, é verdade) e a segurança, motivo de tanta preocupação, não foi destaque em jornais nem daqui nem de Bagdá.

Perdão, dona Dilma, a senhora tinha razão, essa foi a “Copa das Copas” sim. O mundo reconhece. Nem sabemos quem será o campeão dentro de campo, mas fora dele, o país saiu vencedor, sem dúvida.

Daqui a quatro anos, a Rússia receberá a Copa do Mundo. É com enorme satisfação e saudade que a entregamos a vocês. Façam uma bela festa, acolham a todos com prazer e celebrem junto. O futebol é só um detalhe, pena que só compreendemos isto durante o Mundial. Mas mesmo assim, valeu muito a pena.

Até 2018, Rússia. Com amor, Brasil.