Mês: abril 2015

A Tela no Texto – Janela Indiscreta, de Sir Alfred Hitchcock

Volto aos textos no blog depois de quase um ano (!) para falar de algo que é uma das minhas maiores paixões na vida: o cinema. Mais especificamente, sobre esta fascinante obra do Mestre do Suspense, Sir Alfred Hitchcock.

O diretor com uma claquete durante as filmagens de “Psicose”

Para quem nunca viu nada desse camarada, certamente já deve ter visto pelo menos alguma referência à icônica cena do chuveiro do mesmo Psicose:

Lembrou do Super Cine? Pois é, daria pra fazer uma maratona de Super Cine só com seus filmes. Com uma observação, óbvia: estes são muito melhores do que a grande maioria dos suspenses meia boca que passaram por lá.

Deixando nossos sábados à noite de tédio de lado, venho falar aqui deste excelente Janela Indiscreta, de 1954 (existe uma versão de 1998 com o saudoso Christopher Reeve, fuja). O renomado fotógrafo L.B. Jefferies, depois de sofrer um acidente que o deixa de molho por 7 semanas, passa os dias na janela de seu apartamento observando a vizinhança. Este exercício de observação dos hábitos alheios se torna intenso o bastante a ponto de fazê-lo criar apelidos para cada um, como a “Srta. Busto”, a “Srta. Solitária”, o “Pianista”, etc.

Justamente por conhecer seus hábitos tão a fundo, Jeff é capaz de criar uma teoria que envolve um vizinho em específico, apenas por observar atos que geralmente não fazem parte do seu cotidiano. Sem poder sair de seu apartamento, ele acaba fomentando uma investigação da qual fazem parte um amigo detetive, sua enfermeira e a futura esposa que ele reluta em aceitar: Lisa, interpretada por Grace Kelly, uma princesa – literalmente.

O plano que abre o filme é preciso e imprescindível ao espectador por mostrar todo o ambiente que cerca a janela do apartamento de Jeff. Dessa forma, o espectador fica situado como o personagem.

O plano inicial do filme representado por esta imagem panorâmica

O plano inicial do filme representado por esta imagem panorâmica

Sir Hitchcock (como deve ser legal ser um Sir) utiliza aqui um recurso sensacional: praticamente toda a ação do filme é mostrada apenas da visão da janela de Jeff, colocando o espectador lá, na cadeira de rodas, despertando nele as mesmas curiosidades, dúvidas ou angústias do personagem. Este recurso tem duas funções principais: cria todo o suspense da trama, através da falta de conhecimento dos fatos e da impossibilidade de ação, como também serve para ilustrar tudo o que discutirei nos dois próximos parágrafos.

Pois é através do desenvolvimento da narrativa a partir deste cenário que Sir Hitchcock aproveita para levantar alguns questionamentos morais e sobre as relações humanas, valendo-se de bons diálogos, mas também de algumas cenas bem tocantes. Afinal de contas, é na intimidade de nossos lares que podemos ser quem somos, sem se preocupar com as aparências, julgamentos ou pudores.

Ora, quem de nós, também conhecendo alguns hábitos de nossos vizinhos, nunca fizemos comentários do tipo “Fulano chegando em casa a essa hora” ou “Ciclano não dá festas há algum tempo, deve tá namorando”? Isso é inerente ao ser humano, a curiosidade pela vida alheia, que garante sucessos de mídia que vão desde o Big Brother até àquele que é a grande vizinhança do mundo, o Facebook. Neste filme, o personagem de Jeff é a representação daquelas senhoras sentadas à varanda em cidadezinhas do interior (alô, Ituiutaba!) fazendo fofoca, ou, por que não, é a representação, em maior ou menor grau, de nós mesmos.

Mas é no desenvolvimento do mistério central que reside toda a dinâmica do filme. Em alguns momentos temos vontade de “saltar pra dentro da tela” e agir, tamanha a angústia! Mas não, Sir Hitchcock já nos colocou ali “sendo” Jeff, e uma perna engessada não nos permite fazer muita coisa. Essa tensão só aumenta à medida que vamos nos aproximando do clímax e confesso que, pela maneira como os fatos foram ocorrendo, imaginei que o final seria outro, mais trágico. Entretanto, admito que ele não se encaixaria tão bem, pela temática utilizada (inclusive não farei nenhum comentário para não dar spoiler, mas gostaria de discutir com quem já viu ou depois que assistir o filme).

No mais, Janela Indiscreta pode ser definido como uma autêntica obra de suspense que ainda suscita uma boa discussão sobre o cotidiano e o comportamento humano, sobre como o fato de seu vizinho sair às duas da manhã debaixo de chuva pode não significar nada – ou algo terrível.