Mês: novembro 2015

Catavento

Na escuridão o pensamento ecoa tanto que se torna ensurdecedor, pensou o Catavento.

Desde que aquele rigoroso inverno começou, um bom tempo atrás, Catavento não mais havia visto as cores. Muito menos o vento. Trancado naquela gaveta, enquanto o tempo se fazia de estátua, não podia mover-se.

Pensava nos outros. Estariam na mesma situação que ele? Se não, por que ele? O que ele fez de errado? Deveria ser simples, o vento sopra e o Catavento gira, certo?

Quem te sopra, Catavento?

Se lembra bem da última vez. Aquele vento era manso, constante, carinhoso. Soprava de todos os lados e amava a todos, de modo que todos o apreciavam também.

Mas houve dias em que choveu, muito, e nesses dias o vento ficava mudo.

E o silêncio fez com que o Catavento desejasse outros ventos.

E perdeu-se.

Perdeu-se na inocência que excita, na certeza que mente, na estrada que leva ao palácio dos prazeres eternos.

Onde nunca se chega.

Até que um dia, à beira de um lago, enquanto a brisa tentava lhe adoçar a razão, Catavento viu seu reflexo na água.

Onde estariam suas cores, seus contornos, seus amores, seus adornos?

Onde estariam seus sonhos?

Quem te sopra, Catavento?

No escuro, o Catavento escuta um som diferente.

Parece que tem algo batendo, é o som de uma janela batendo, é…

Um vento tentando abrir a janela!

Cada batida é como um chamado, seu nome ouvido no ranger das fibras, vem, Catavento, vem!

Não sabia como interpretar aquilo. Quem era? Por que agora?

Olhou pro tempo, que tentava disfarçar um sorriso. Catavento entendeu que não havia o que entender.

E Catavento foi.

E nas rotações que se seguiram, seus tons acinzentados e pálidos deram lugar a novas paletas de cores. Muitos ventos sopraram, uns generosos como colo de mãe, outros revoltos como ondas do mar. Mas todos eles tinham um propósito, uma missão, e Catavento compreendia.

E assim Catavento seguia girando, passando o passado para trás, quando foi tomado de súbito por um vendaval. Um vendaval não, um tornado. Um tornado não, um furacão.

Catavento não sabia como agir, o que pensar, como sentir.

Arrastado por aquela força devastadora, apenas mergulhou nas trevas e se deixou levar.

Sua consciência rodopiava em torno de uma espiral de medo, excitação, angústia, sonho e também realidade. Fora tomado por uma tempestade de areia do tempo, onde cada volta trazia uma cena de sua viagem existencial.

Seria este seu destino final?

O furacão passou.

Onde estou? Eu me sinto… nas nuvens! – pensou.

Catavento despertou.

Então viu.

Que ali ele podia ter o mundo.

Que dali ele podia ver a vida.

Mas e agora?

Quem te sopra, Catavento?

Ora, quem me sopra não é o vento.

Mas o tempo.

As ironias que vêm com o vento

Quarta-feira, 4 de novembro, terceiro dia como voluntário aqui no Antwerp Student Hostel. Logo pela manhã sou incumbido de levar uns doze cestos de lixo de 240 litros de volta para o subsolo, já que a coleta de lixo já havia recolhido tudo.

Antes de prosseguir, vale explicar como funciona esse tipo de trabalho. Há um site chamado worldpackers.com, onde é possível se inscrever em um ou vários das centenas de hostels cadastrados ao redor do mundo, para trabalhar durante um período de tempo. Em troca, hospedagem, alimentação (parcial ou completa, depende do hostel) e lavanderia. Ou seja, é uma ótima forma de aprimorar o idioma e conhecer lugares e pessoas novas gastando bem menos.

Jabá feito, voltemos ao texto. Lá estou eu trazendo os tais cestos de lixo de volta e entre uma saudade e outra, entre a lista mental do supermercado e o medo da chuva que deve cair, passo a reparar no que estou fazendo. É algo que muita gente se recusaria a fazer, certo? Como se um diploma na parede e/ou alguns zeros a mais na conta bancária (não que eu os tenha, vale lembrar) fossem capazes de colocar tal gente numa redoma inquebrável feita de hipocrisia e frustração, posicionada sob um pedestal donde se lê a legenda “Você sabe quem sou eu?”. Aliás, sobre isso recomendo esta ótima explanação do brilhante Mário Sérgio Cortella:

O fato é que eu estava até me divertindo, pois era algo que fazia pela primeira vez. Tudo que é novo traz sensações diferentes e você, leitor, se não procura notá-las quando faz algo novo, está deixando de descobrir um mundo infinitamente instigante: o seu eu.

Terminado o serviço, saio pra ir até o supermercado. O sol não veio, mas o vento me dá bom dia com um tapa frio no rosto (ele não sabe brincar). A rua é cheia de árvores e como é outono, está repleta de folhas também. Aliás, como é lindo o outono! As paisagens são ainda mais especiais, pois quem vive ao sul do Equador não vê isso ao vivo.

Eis que observo dois varredores da cidade do outro lado da rua. Um deles está fazendo uma pose com sua vassoura na mão enquanto o colega tira uma foto sua. A foto deve ter ficado bem legal pois, nessa hora havia não uma chuva de água, mas de folhas, com o vento a despir as árvores incessantemente (ele realmente não sabe brincar).

Nesse momento me peguei abrindo um sorriso gigante no rosto. Aquele homem estava orgulhoso e se sentindo realmente contente com seu trabalho. Algo que talvez seja mais comum por aqui, onde as tais redomas não resistem a uma atmosfera de menor desigualdade social e preconceito. Naquela hora eu me senti muito feliz por ver alguém fazendo algo que lhe dá prazer. Obviamente, o fato de ter feito um serviço do gênero minutos antes adicionou um toque de ironia ao fato. Meu sorriso foi ainda mais genuíno e confortante.

Portanto, é realmente triste ver existir uma segregação com base nisso, seja ela em qualquer país. Qualquer trabalho é nobre e honrado, desde que feito com dedicação. Não importa se é com uma caneta ou com uma vassoura na mão, um bisturi ou um serrote; a verdadeira riqueza está em fechar os olhos ao final do dia e saber que sua obra está ali, sólida como mármore, monumento eterno a impactar àqueles à sua volta, humilde tributo aos seres de bom coração.

Anna

Um dia de solidão e um passeio num parque da Antuérpia e decido contar um pouco da história de Anna. Mas talvez nem seja sua história. Talvez nem seja Anna.

Era outono, mas um atrevido dia de outono com muito sol e um imenso céu completamente azul, o que não era comum naquela época. Por essa razão o parque estava cheio, não só de crianças e sorrisos mas também de solidão e de pensamentos absortos.

Como os de Anna. Ela estava ali sentada observando um grupo de pequenas meninas brincando, e seu olhar poderia estar nelas mas elas não estavam em sua mente. Ela estava longe, tanto no tempo como no espaço, e o ser humano ainda não criou uma unidade de medida para isto.

Fazia uma semana desde o ocorrido. Entretanto talvez fosse esta a primeira vez em que estivesse realmente pensando sobre o fato. Não que não o tenha feito nos últimos dias, claro, mas como estava sempre à base de entorpecentes (trabalho, academia, estudo, tv e outras drogas legalizadas) as lembranças vinham mais como flashes, como bad trips, como punhaladas nas costas.

Tentou se distrair lendo um livro que comprara algumas semanas antes, mas não conseguiu ler mais do que dez, doze, quatro páginas. Fechou-o e abriu uma fenda no espaço-tempo para aquele dia. E lá ficou por horas, dias, mas não mais do que dois minutos na nossa contagem de tempo. Como dito, não se mede o tempo nem o tamanho do pensamento.

Anna era jovem, bonita, belos cabelos loiros e a pele como a de alguém nascida na realeza. O sol se apaixonou por ela e fazia com que seu rosto brilhasse por todo o tempo em que estivera ali. Desse modo, era compreensível que, algum homem ou mulher que por ali a visse pudesse sentir o mesmo que o sol.

Anna também era bela de alma, e sua energia poderia abastecer uma pequena cidade do interior. Isso também chamava a atenção de muitos. De um homem, em especial, cujo nome pode-se omitir pois não está à altura. Esse homem contou a ela uma história, mas o final era terrível. Como o final de Lost, alguns diriam. Anna também havia comprado esse livro, mas ele não ficou bem em sua estante.

Com a urgência de uma indústria, Anna subitamente retornou ao mundo material e se levantou de pronto. Verificou o celular, “Chris curtiu uma foto sua”, “Último dia da promoção de Halloween, não perca!”, bateria em 59%, só. Guardou-o, subiu em sua bicicleta e lembrou que tinha que comprar a comida do gato, mas hoje é domingo, teria que ir até o supermercado, que é mais longe, “acho que a comida ainda dá pra hoje”, foi direto pra casa, deitou-se na cama e chorou.

Segunda-feira também fez sol.