Anna

Um dia de solidão e um passeio num parque da Antuérpia e decido contar um pouco da história de Anna. Mas talvez nem seja sua história. Talvez nem seja Anna.

Era outono, mas um atrevido dia de outono com muito sol e um imenso céu completamente azul, o que não era comum naquela época. Por essa razão o parque estava cheio, não só de crianças e sorrisos mas também de solidão e de pensamentos absortos.

Como os de Anna. Ela estava ali sentada observando um grupo de pequenas meninas brincando, e seu olhar poderia estar nelas mas elas não estavam em sua mente. Ela estava longe, tanto no tempo como no espaço, e o ser humano ainda não criou uma unidade de medida para isto.

Fazia uma semana desde o ocorrido. Entretanto talvez fosse esta a primeira vez em que estivesse realmente pensando sobre o fato. Não que não o tenha feito nos últimos dias, claro, mas como estava sempre à base de entorpecentes (trabalho, academia, estudo, tv e outras drogas legalizadas) as lembranças vinham mais como flashes, como bad trips, como punhaladas nas costas.

Tentou se distrair lendo um livro que comprara algumas semanas antes, mas não conseguiu ler mais do que dez, doze, quatro páginas. Fechou-o e abriu uma fenda no espaço-tempo para aquele dia. E lá ficou por horas, dias, mas não mais do que dois minutos na nossa contagem de tempo. Como dito, não se mede o tempo nem o tamanho do pensamento.

Anna era jovem, bonita, belos cabelos loiros e a pele como a de alguém nascida na realeza. O sol se apaixonou por ela e fazia com que seu rosto brilhasse por todo o tempo em que estivera ali. Desse modo, era compreensível que, algum homem ou mulher que por ali a visse pudesse sentir o mesmo que o sol.

Anna também era bela de alma, e sua energia poderia abastecer uma pequena cidade do interior. Isso também chamava a atenção de muitos. De um homem, em especial, cujo nome pode-se omitir pois não está à altura. Esse homem contou a ela uma história, mas o final era terrível. Como o final de Lost, alguns diriam. Anna também havia comprado esse livro, mas ele não ficou bem em sua estante.

Com a urgência de uma indústria, Anna subitamente retornou ao mundo material e se levantou de pronto. Verificou o celular, “Chris curtiu uma foto sua”, “Último dia da promoção de Halloween, não perca!”, bateria em 59%, só. Guardou-o, subiu em sua bicicleta e lembrou que tinha que comprar a comida do gato, mas hoje é domingo, teria que ir até o supermercado, que é mais longe, “acho que a comida ainda dá pra hoje”, foi direto pra casa, deitou-se na cama e chorou.

Segunda-feira também fez sol.

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