Mês: fevereiro 2016

Mudança

Entre as piores coisas da vida, como chutar o canto do sofá com o mindinho do pé, perder o ônibus, perceber que acabou o papel e, enfim, muitas outras, podemos considerar fazer mudança em dia de chuva parte desse rol, certamente. Alberto diria que está certo, com um aceno de cabeça e uma coçada no queixo, como sempre faz quando concorda com algo. Lá estava ele, com as roupas molhadas prestes a terminar a sua, olhando o céu despejar sua ira em forma de água, naquela tarde de quinta. Cada trago no cigarro era uma descarga de fumaça em seus pulmões e milhões de outras elétricas em seu cérebro, a fim de acompanhar a velocidade com que o pensamento ia e vinha.

Parado em frente ao prédio onde vivera por quase seis anos, esperava que a tormenta parasse, ou pelo menos se tornasse chuva leve, para que pudesse levar as últimas caixas para o carro, que teve que ficar estacionado um pouco longe por falta de vaga. Essa talvez fosse a grande desvantagem daquele prédio. Gostava dali, era uma boa localização, mas não tinha garagem. Agora, sozinho, já não fazia sentido continuar ali e junto com outras coisas, se faziam as razões pelas quais estava se mudando. Mas essas outras coisas eram basicamente lembranças e estas os corretores de imóveis não incluiriam no aluguel, então tudo bem.

Não demorou muito até que a chuva diminuísse e Alberto subisse ao apartamento para finalmente recolher as caixas. Subiu os degraus depressa, numa corrida contra o tempo, ou melhor, contra a chuva, mas quando chegou à porta se conteve. Ficou por alguns segundos contemplando-a. Na pele aquela estranha sensação de quando estamos nos despedindo de alguém. Não, não poderia simplesmente deixar aquele apartamento com tanta pressa, era preciso dizer adeus de maneira digna.

Alberto entrou, deu alguns passos, enfiou as mãos nos bolsos e ficou ali, imóvel, olhando, escutando as vozes roucas das paredes sujas e desgastadas pelo tempo. “Foi culpa sua”, repetiam. Não era muito lisonjeiro da parte delas, mas depois de tudo que presenciaram ali nos últimos anos, era só o que sabiam dizer. Ele então parou de prestar atenção nelas por um momento e fixou os olhos na janela, do mesmo jeito em que estivera uma vez há poucos meses, quando percebeu que deixaria aquele apartamento em breve. Aquela janela foi mais complacente e apenas ficou em silêncio, fitando-o.

Seguiu para os outros cômodos como se quisesse dizer adeus a cada um. A cada rodapé, a cada grão de poeira no chão, a cada rachadura encontrada, uma porção de memórias, segredos, olhares, carinhos, risadas, palavrões, rancores e dores surgiam repentina e implacavelmente, imitando os relâmpagos lá fora. Aliás, como haviam rachaduras! Com todos os móveis, com as pessoas, com a rotina, ele nunca havia notado que eram tantas (e tão grandes). Pois eram, ele nada fez para impedir que progredissem, elas tomaram conta de algumas paredes e do teto, agora era tarde.

Quando foi entrar no antigo quarto, perdeu a coragem. Ali ainda estavam guardados provavelmente os melhores e os piores momentos dos últimos anos, as poucas vezes em que disse sim, as tantas vezes em que disse não. Sim ao prazer, à entrega, ao presente; não ao perdão, ao respeito, ao futuro. Decidiu então não entrar e fechar a porta.

Enquanto se encaminhava para a porta de entrada, ouvindo o eco produzido pelo barulho dos próprios passos, teve medo. Aquele som era triste e desolador. A solidão abraçou-o mais forte que nunca. Alberto, que sempre foi osso duro, pela primeira vez desde a separação, chorou. Escorou-se na parede, de frente para a porta de entrada e desabou, sentando-se no chão. As paredes agora choravam junto.

A porta tinha ficado aberta e algum momento depois dona Denise, senhora que morava no 303, estava saindo quando notou o penoso fato. Aproximou-se da porta.

– Tá tudo bem, meu filho? Tá indo hoje?

– Tudo bem, dona Denise, estou pegando as últimas caixas – disse Alberto, enquanto se levantava e limpava as lágrimas do rosto.

– Que bom! Mudança é difícil mas é preciso.

– Muito difícil! E com essa chuva toda ainda…

Dona Denise então se aproximou dele e disse com a voz suave e terna de quem possui a sabedoria de uma biblioteca de Alexandria:

– Não estou falando do apartamento, meu filho.

E saiu, fazendo um aceno com a mão esquerda.

Alberto engoliu o resto do choro, aquelas palavras, fez um aceno de cabeça e coçou o queixo. Segundos depois, pegou as coisas, virou-se e com um suspiro, soltou um “adeus” quase audível. Logo em seguida, saiu, sem olhar para trás.

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