A Tela no Texto – Blade Runner O Caçador de Androides

(Para quem ainda não viu: Blade Runner possui vários cortes – versões – sendo que a mais indicada seria a “Final Cut”, pois é aquela em que o diretor Ridley Scott tem total supervisão).

Faça o seguinte experimento: escolha algumas fotos antigas, suas favoritas. Olhe atentamente cada uma. Procure lembrar da experiência relacionada à fotografia. Observe as sensações e emoções que afloram nesse momento. O que estas emoções dizem sobre você? Como esta memória afetou sua personalidade? O que ela trouxe pra sua vida?

Esta reflexão de caráter existencialista é que move a trama de Blade Runner – uma ficção científica neo-noir de 1982. A história se passa na Los Angeles de 2019, onde o ex-policial Deckard, vivido por Harrison Ford, tem a missão de caçar quatro Replicantes fugitivos de uma colônia espacial. Os Replicantes são clones criados para colonizar outros planetas e foram impedidos de viver na Terra legalmente.

Três elementos são fundamentais para situar o espectador neste universo: o design de produção, a fotografia e a cadência. Logo no plano inicial, vê-se a cidade iluminada vista de longe, carros voadores circulando entre seus arranha-céus e estruturas piramidais monumentais; a fotografia traz os ambientes quase sempre escuros e esfumaçados contrastados por luzes intermitentes que remetem a telas ou máquinas. Tudo explorado por meio de planos longos, contribuindo para que o ritmo da narrativa seja monótono e sufocante – exatamente como os exóticos habitantes dessa Los Angeles se sentem.

Como complemento a estas características, a trilha sonora de Vangelis é magistral, sempre ajustando o tom da produção com seus traços de música oriental, numa roupagem que mistura o clássico e o eletrônico.

Toda esta atmosfera determina a relação entre os personagens, quase sempre melancólicos e praticamente inexpressivos, além do alcoolismo abordado constantemente. A originalidade do roteiro aqui reside em apresentar os Replicantes como um contraponto a isso, já que são figuras que parecem apreciar cada segundo de suas vidas justamente por serem cientes de sua existência fugaz. Dessa forma, o ator Rutger Hauer, que vive o Replicante Roy, desenvolve o conceito com extrema intensidade, fazendo de cada aparição em tela um capítulo à parte. Suas ações são  frequentemente antecipadas por uma tensão crescente, engrandecendo não somente o personagem, mas também as próprias ações em si.

É notável como o longa consegue amarrar todos os seus elementos visuais e narrativos, de modo que o espectador consiga compreender todas as motivações dos personagens e o rumo da trama. Até mesmo Deckard, cujas ambições são desconhecidas (ou mesmo nulas) a princípio, tem seu arco dramático desenvolvido de maneira fluida e, por que não, simbólica. É fundamental que Blade Runner trate o protagonista deste modo, para que o espectador, assim como ele, possa imergir numa experiência totalmente nova, fazendo com que estes acontecimentos o definam. Entretanto, de forma brilhante, o roteiro não define o personagem (ou a experiência) com respostas, mas com novos questionamentos.

Ora, se nossas memórias nos definem, cada nova experiência traz consigo novas memórias; sendo assim, o que somos nós, afinal? A resposta, provavelmente só virá quando nossa última memória for criada – ou quando desaparecer.

Mas, por enquanto, fiquemos apenas com a certeza de que Blade Runner é como uma bela foto: cada olhar, cada visita trará novas emoções e, melhor ainda, novas perguntas.

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