Crônicas

As ironias que vêm com o vento

Quarta-feira, 4 de novembro, terceiro dia como voluntário aqui no Antwerp Student Hostel. Logo pela manhã sou incumbido de levar uns doze cestos de lixo de 240 litros de volta para o subsolo, já que a coleta de lixo já havia recolhido tudo.

Antes de prosseguir, vale explicar como funciona esse tipo de trabalho. Há um site chamado worldpackers.com, onde é possível se inscrever em um ou vários das centenas de hostels cadastrados ao redor do mundo, para trabalhar durante um período de tempo. Em troca, hospedagem, alimentação (parcial ou completa, depende do hostel) e lavanderia. Ou seja, é uma ótima forma de aprimorar o idioma e conhecer lugares e pessoas novas gastando bem menos.

Jabá feito, voltemos ao texto. Lá estou eu trazendo os tais cestos de lixo de volta e entre uma saudade e outra, entre a lista mental do supermercado e o medo da chuva que deve cair, passo a reparar no que estou fazendo. É algo que muita gente se recusaria a fazer, certo? Como se um diploma na parede e/ou alguns zeros a mais na conta bancária (não que eu os tenha, vale lembrar) fossem capazes de colocar tal gente numa redoma inquebrável feita de hipocrisia e frustração, posicionada sob um pedestal donde se lê a legenda “Você sabe quem sou eu?”. Aliás, sobre isso recomendo esta ótima explanação do brilhante Mário Sérgio Cortella:

O fato é que eu estava até me divertindo, pois era algo que fazia pela primeira vez. Tudo que é novo traz sensações diferentes e você, leitor, se não procura notá-las quando faz algo novo, está deixando de descobrir um mundo infinitamente instigante: o seu eu.

Terminado o serviço, saio pra ir até o supermercado. O sol não veio, mas o vento me dá bom dia com um tapa frio no rosto (ele não sabe brincar). A rua é cheia de árvores e como é outono, está repleta de folhas também. Aliás, como é lindo o outono! As paisagens são ainda mais especiais, pois quem vive ao sul do Equador não vê isso ao vivo.

Eis que observo dois varredores da cidade do outro lado da rua. Um deles está fazendo uma pose com sua vassoura na mão enquanto o colega tira uma foto sua. A foto deve ter ficado bem legal pois, nessa hora havia não uma chuva de água, mas de folhas, com o vento a despir as árvores incessantemente (ele realmente não sabe brincar).

Nesse momento me peguei abrindo um sorriso gigante no rosto. Aquele homem estava orgulhoso e se sentindo realmente contente com seu trabalho. Algo que talvez seja mais comum por aqui, onde as tais redomas não resistem a uma atmosfera de menor desigualdade social e preconceito. Naquela hora eu me senti muito feliz por ver alguém fazendo algo que lhe dá prazer. Obviamente, o fato de ter feito um serviço do gênero minutos antes adicionou um toque de ironia ao fato. Meu sorriso foi ainda mais genuíno e confortante.

Portanto, é realmente triste ver existir uma segregação com base nisso, seja ela em qualquer país. Qualquer trabalho é nobre e honrado, desde que feito com dedicação. Não importa se é com uma caneta ou com uma vassoura na mão, um bisturi ou um serrote; a verdadeira riqueza está em fechar os olhos ao final do dia e saber que sua obra está ali, sólida como mármore, monumento eterno a impactar àqueles à sua volta, humilde tributo aos seres de bom coração.