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Sobre a Alemanha nazista e a ascensão do autoritarismo hoje – uma série de tweets por Sandra Schwab

Este texto é a tradução de uma thread no Twitter publicada por Sandra Schwab (@ScribblingSandy). O meu perfil é o @marmar_abc.

Procurei ser o mais fiel possível à linguagem utilizada por ela; peço desculpas pelos erros pois não sou tradutor profissional, apenas alguém com boa vontade e um tempinho sobrando 🙂

Quando você cresce na Alemanha estudando no sistema escolar alemão, você estuda o período do Terceiro Reich várias vezes. Em História vemos pelo menos duas vezes; em Alemão nós falamos sobre isso quando lemos contos e poesia. Em Inglês nós lemos The Wave de Mortons Rue. Quando A Lista de Schindler foi lançado, nosso professor nos levou ao cinema para assisti-lo. Quando tínhamos 15 ou 16 anos, nosso professor de História nos apresentou o filme alemão antiguerra Die Brücke. Fizemos uma de nossas excursões de classe para o Museu Judaico de Frankfurt e outra para um antigo campo de concentração.

Na Alemanha você não se dá ao luxo de dizer a si mesmo (e a seus filhos) “isso não vai acontecer em nosso país”. Logo, nós não só conhecemos os horrores da Alemanha nazista, como também aprendemos sobre os mecanismos da sociedade dos anos 30. Aprendemos sobre como a democracia era vulnerável e como foi facilmente derrubada. Aprendemos que algo como o Holocausto não começa em campos de concentração, mas com um discurso voltado à desumanização de um grupo inteiro de pessoas.

Outro aspecto que abordamos é sobre como era a vida na Alemanha Nazista. Deixe-me dizer que é terrivelmente foda o quanto era fácil erguer e sustentar um sistema como aquele. Você era filiado ao partido errado? Você está preso. Você contou uma piada inapropriada? Você está preso. Você quer que seu filho trabalhe como aprendiz em uma grande fábrica, no caso o maior empregador na sua cidadezinha? Melhor que ele pertença à Juventude Hitlerista (esta é a razão pela qual meu avô se juntou à instituição). Ah, e sua filha? Ela é um membro da Liga das Moças Alemãs? Se não, por quê? E você, quer ser professor? Bem, melhor que seja filiado ao Partido Nazista.

No Stew Sunday (Eintopfsonntag), era esperado que alguém do Partido Nazista aparecesse em sua residência. Eles queriam ter certeza de que você realmente havia preparado um cozido e que havia doado o restante que seria gasto em uma refeição mais elaborada, como um esforço para fazer o seu país ser grande novamente (e se você não tivesse um cozido preparado, era bom que tivesse uma bela explicação pra isso).

Nota de tradução: Em 1933, Hitler determinou que um domingo por mês, de outubro a março, deveria ser reservado para o Eintopf (literalmente, “uma panela”), que se tratava de um cozido ou guisado onde se colocava tudo em uma panela só, economizando comida e, consequentemente, dinheiro; este dinheiro deveria ser doado à Nationalsozialistische Volkswohlfahrt (Organização Nacional-Socialista de Previdência Social Popular) para fins de caridade (pelo menos este era o discurso).

Quer ser um folclorista? Ouvi dizer que nossas grandes raízes Germânicas são tudo o que interessa agora. Melhor trabalhar com isso. Vá dar uma olhada em algumas runas. Quer trabalhar como autor? Bem, se você era um crítico dos membros de nosso partido antes de chegarmos ao poder, vamos queimar seus livros (naturalmente, você não poderá publicar nada novo).

Dirigia uma organização juvenil nos anos 20? Naturalmente será fundida às novas organizações nacionais juvenis. Mas ei, estas duas novas organizações nacionais (a Juventude Hitlerista – Hitlerjugend e a Liga das Moças Alemãs – Bund Deutscher Mädel) são incríveis. Quero dizer, sim, há um pouquinho de doutrinação política, mas você poderá fazer coisas emocionantes; fará excursões e nos feriados. Você está sendo feito se sentir parte de um grupo – e todos nós sabemos o quanto esta sensação é poderosa, certo?

Imagine viver em um país assim. Imagine viver em um país onde seus filhos estão sendo instruídos a dar informações sobre você e sobre os professores deles. Imagine viver em um país onde seus vizinhos podem te denunciar se você fizer piada sobre a liderança política do seu país. Imagine assistir seu vizinho, um membro proeminente do Partido Socialista Democrático, sendo levado pela polícia para um campo de concentração. Imagine assistir uma multidão furiosa destruindo a loja do seu vizinho judeu.

Você teria coragem suficiente para se manifestar numa situação como essa, sabendo que a multidão poderia se virar contra você? O que aconteceria à sua família? Ou você estaria nessa multidão? Pois fazer parte de um grupo faz você se sentir poderoso e importante. Ou você seria um espectador incentivando-os? Porque pelo menos quando eles atacassem outros, não atacariam você. Ou você estaria sentado em seu apartamento no fim da rua, com sua vida normal, que certamente não poderia piorar, e seria mais fácil não prestar atenção em todas as coisas ruins que estariam acontecendo com outras pessoas.

Veja, pela sua perspectiva, é fácil dizer “Eu teria resistido. Eu teria me manifestado”. Mas até que você viva em um sistema assim, até que você se encontre numa situação similar, você simplesmente não pode ter certeza.

Se você gostaria de ler um relato de uma vida na Alemanha nazista, eu recomendo o romance de Anna Seghers The Seventh Cross. Anna Seghers (Netty Reiling) era de uma família judia em Mainz. Grande parte do seu trabalho consistem em lançar um olhar crítico na sociedade. Ela se juntou ao Partido Comunista Alemão em 1928, e se tornou um membro proeminente da esquerda política e da cena literária na República de Weimar. Por esta óbvia razão, ela estavam em perigo iminente quando os Nazistas chegaram ao poder, e ela e seu marido saíram da Alemanha em 1933.

Nos anos seguintes, sua família viveu em Paris, onde ela ainda recebia cartas de amigos e família. Foi lá que ela começou a trabalhar em The Seventh Cross, cujo subtítulo é “Um Romance da Alemanha Nazista”. Ela deve ter terminado o romance entre 1938 e 1939, tentando encontrar uma editora para ele. Quando a Guerra eclodiu, ela e seus filhos tiveram que fugir de Paris, enquanto seu marido era mantido num campo de internação. Eventualmente, ela conseguiu uma permissão para residir no México, o que significava que seu marido estava liberado para deixar o campo. Eles saíram de Marseille, que era a única porta de saída para refugiados que queriam deixar a França (neste ponto ela não levava mais nenhum manuscrito do livro consigo).

A jornada de sua família não os levaria ao México diretamente, mas a várias entradas diferentes. Em um determinado momento, eles foram parar em Ellis Island. E não foram liberados a entrar nos EUA. Sua situação neste momento era desesperadora. Entretanto, eles foram liberados a receber visitas, e uma delas foi do agente de Segher, Maxim Lieber, que trazia uma com um contrato de publicação com a Little, Brown and Company para a tradução para o inglês de The Seventh Cross. O romance foi publicado nos EUA em outubro de 1942. Enquanto isso, Seghers e sua família foram finalmente liberados a deixar Ellis Island e viajar para o México. A primeira edição alemã do livro foi lançada em 1943 pela editora mexicana El Libro Libre.

The Seventh Cross se passa na metade dos anos 30 e conta a história de sete homens que conseguiram fugir do campo de concentração de Westhofen (o qual se baseia no campo de concentração de Osthofen, que existiu de 1933-34 e se situava acerca de Worms). O comandante do campo tinha sete cruzes erguidas no jardim principal com o intuito de amarrá-los (ou seus corpos) a estas cruzes.

O personagem principal é Georg, um dos homens que fugiram do campo. Mas o romance não fala apenas deste voo de fuga, é também sobre todas as pessoas diferentes que Georg conhece; pessoas de todas as classes sociais, pessoas que estão preparadas para ajudá-lo direta ou indiretamente e pessoas que adorariam denunciá-lo. Esta história é também sobre os velhos amigos de Georg e sua família. Quando ela fica sabendo deste voo dos sete homens de Westhofen, muitos deles se perguntam se Georg poderia ser um dos sete. Como resultado, muitos deles tentam encontrar meios de ajudá-lo de alguma forma, enquanto outros – notavelmente seu irmão caçula, que ele ama muito – estão determinados a entregá-lo. Quanto mais tempo a cruz de Georg permanece vazia, maior se torna o desafio que ele representa ao regime nazista.

The Seventh Cross é um romance brilhante e emocionante que nos presenteia com um cenário detalhado de como era a vida na Alemanha nazista em 1930. Definitivamente, vale a leitura!

E isso é tudo. Obrigado a todos que me acompanharam nessa thread.

P.S.: Em caso de alguém estar se perguntando, estou assustada pra caralho porque estamos vendo a ascensão de partidos de direita e desta retórica em muitas partes da Europa (inclusive a Alemanha com o assombroso AfD), assim como um movimento em direção ao autoritarismo em vários países do Ocidente. E existem alguns dias em que parece que a escuridão está tomando conta de tudo e prestes a nos engolir.

Mudança

Entre as piores coisas da vida, como chutar o canto do sofá com o mindinho do pé, perder o ônibus, perceber que acabou o papel e, enfim, muitas outras, podemos considerar fazer mudança em dia de chuva parte desse rol, certamente. Alberto diria que está certo, com um aceno de cabeça e uma coçada no queixo, como sempre faz quando concorda com algo. Lá estava ele, com as roupas molhadas prestes a terminar a sua, olhando o céu despejar sua ira em forma de água, naquela tarde de quinta. Cada trago no cigarro era uma descarga de fumaça em seus pulmões e milhões de outras elétricas em seu cérebro, a fim de acompanhar a velocidade com que o pensamento ia e vinha.

Parado em frente ao prédio onde vivera por quase seis anos, esperava que a tormenta parasse, ou pelo menos se tornasse chuva leve, para que pudesse levar as últimas caixas para o carro, que teve que ficar estacionado um pouco longe por falta de vaga. Essa talvez fosse a grande desvantagem daquele prédio. Gostava dali, era uma boa localização, mas não tinha garagem. Agora, sozinho, já não fazia sentido continuar ali e junto com outras coisas, se faziam as razões pelas quais estava se mudando. Mas essas outras coisas eram basicamente lembranças e estas os corretores de imóveis não incluiriam no aluguel, então tudo bem.

Não demorou muito até que a chuva diminuísse e Alberto subisse ao apartamento para finalmente recolher as caixas. Subiu os degraus depressa, numa corrida contra o tempo, ou melhor, contra a chuva, mas quando chegou à porta se conteve. Ficou por alguns segundos contemplando-a. Na pele aquela estranha sensação de quando estamos nos despedindo de alguém. Não, não poderia simplesmente deixar aquele apartamento com tanta pressa, era preciso dizer adeus de maneira digna.

Alberto entrou, deu alguns passos, enfiou as mãos nos bolsos e ficou ali, imóvel, olhando, escutando as vozes roucas das paredes sujas e desgastadas pelo tempo. “Foi culpa sua”, repetiam. Não era muito lisonjeiro da parte delas, mas depois de tudo que presenciaram ali nos últimos anos, era só o que sabiam dizer. Ele então parou de prestar atenção nelas por um momento e fixou os olhos na janela, do mesmo jeito em que estivera uma vez há poucos meses, quando percebeu que deixaria aquele apartamento em breve. Aquela janela foi mais complacente e apenas ficou em silêncio, fitando-o.

Seguiu para os outros cômodos como se quisesse dizer adeus a cada um. A cada rodapé, a cada grão de poeira no chão, a cada rachadura encontrada, uma porção de memórias, segredos, olhares, carinhos, risadas, palavrões, rancores e dores surgiam repentina e implacavelmente, imitando os relâmpagos lá fora. Aliás, como haviam rachaduras! Com todos os móveis, com as pessoas, com a rotina, ele nunca havia notado que eram tantas (e tão grandes). Pois eram, ele nada fez para impedir que progredissem, elas tomaram conta de algumas paredes e do teto, agora era tarde.

Quando foi entrar no antigo quarto, perdeu a coragem. Ali ainda estavam guardados provavelmente os melhores e os piores momentos dos últimos anos, as poucas vezes em que disse sim, as tantas vezes em que disse não. Sim ao prazer, à entrega, ao presente; não ao perdão, ao respeito, ao futuro. Decidiu então não entrar e fechar a porta.

Enquanto se encaminhava para a porta de entrada, ouvindo o eco produzido pelo barulho dos próprios passos, teve medo. Aquele som era triste e desolador. A solidão abraçou-o mais forte que nunca. Alberto, que sempre foi osso duro, pela primeira vez desde a separação, chorou. Escorou-se na parede, de frente para a porta de entrada e desabou, sentando-se no chão. As paredes agora choravam junto.

A porta tinha ficado aberta e algum momento depois dona Denise, senhora que morava no 303, estava saindo quando notou o penoso fato. Aproximou-se da porta.

– Tá tudo bem, meu filho? Tá indo hoje?

– Tudo bem, dona Denise, estou pegando as últimas caixas – disse Alberto, enquanto se levantava e limpava as lágrimas do rosto.

– Que bom! Mudança é difícil mas é preciso.

– Muito difícil! E com essa chuva toda ainda…

Dona Denise então se aproximou dele e disse com a voz suave e terna de quem possui a sabedoria de uma biblioteca de Alexandria:

– Não estou falando do apartamento, meu filho.

E saiu, fazendo um aceno com a mão esquerda.

Alberto engoliu o resto do choro, aquelas palavras, fez um aceno de cabeça e coçou o queixo. Segundos depois, pegou as coisas, virou-se e com um suspiro, soltou um “adeus” quase audível. Logo em seguida, saiu, sem olhar para trás.

A Tela no Texto – Que Horas Ela Volta?

Seja como for, uma obra de arte sempre tem como objetivo transmitir sensações a quem interage com ela. O Cinema, ou a Sétima Arte, nos apresenta muitas vezes obras nas quais um dos objetivos é causar incômodo ao espectador, seja através de excessos visuais (como A Paixão de Cristo de Mel Gibson), de suspense (o final de O Silêncio dos Inocentes), ou até mesmo através de humor (a primeira vez de Jim em American Pie). Há várias formas de fazê-lo e uma delas é utilizada com brilhantismo por esta obra nacional de Anna Muylaert: através de uma crítica social.

Sim, a desigualdade social no Brasil é um problema que todos conhecemos e com o qual convivemos, diariamente. Entretanto, não há melhor expressão que defina esse problema como o “elefante na sala de estar”. O “elefante” está ali, incomoda, mas o que todos fazem é ignorá-lo na ilusória esperança de que ele desapareça, ou seja, de que o problema se resolva por si só.

Aqui o elefante é representado pela relação servil entre uma empregada doméstica, Val, e seus patrões, Bárbara e Zé Carlos, além do filho do casal, Fabinho. A dinâmica dessa relação já fica exposta de maneira muito inteligente logo no início: a primeira vez que vemos os personagens do casal é pela fresta da porta da cozinha entreaberta e suas primeiras falas são ordens a Val. Já Fabinho, que foi praticamente criado por ela, uma vez que a mãe sempre foi ausente (“Que horas ela volta?”), desenvolveu um laço maternal, compartilhando coisas do seu dia-a-dia e suas angústias e por isso é apresentado ainda criança, na época em que Val deixou o Pernambuco para ganhar a vida em São Paulo.

O conflito surge quando Jéssica, filha de Val, decide ir a São Paulo para prestar vestibular para Arquitetura. A princípio sendo tratada de maneira amigável pela família com quem a mãe mora (chegando, inclusive, a ser servida por ela), esta relação muda quando Jéssica passa a confrontar o tratamento dispensado a Val. Todavia, suas críticas são muito mais direcionadas ao comportamento passivo da mãe, que aceita seu papel com uma humildade lamentável, a ponto de dizer que “nasceu sabendo” como deve se portar diante das humilhações sofridas, como se fosse uma vítima do destino por ter que se submeter a este tipo de trabalho.

E é de maneira extremamente autêntica que Regina Casé encarna esta figura tão adorável. Sua atuação não encontra exageros e é impressionante ver como ela consegue manter a doçura e a simplicidade vivas em seus olhos e gestos mesmo em situações de desconforto ou angústia. Como se não bastasse Regina ainda protagoniza uma das melhores cenas do Cinema em 2015, envolvendo a piscina da casa, marcando um momento de evolução de Val e arrancando lágrimas até de espectadores menos sensíveis.

Aliás, essa piscina é uma dos vários simbolismos que a direção utiliza, sempre de maneira pouco sutil, vale lembrar (a ideia aqui é causar incômodo), para representar o contraste social presente no filme. Há ainda um plano frequente envolvendo uma escada (ascensão social), as camisetas de times norte-americanos ou de cidades estrangeiras que Val usa (claramente descartadas pela família) e um jogo de xícaras preto e branco que reforça esta ideia de contraste.

Contudo, Que Horas Ela Volta? também é um interessante estudo de personagens, e outra ideia abordada no filme são as relações de Jéssica e Fabinho com suas mães. Ambos possuem uma imensa dificuldade em manifestar afeto, uma vez que foram criados por outras pessoas. Aqui a obra traça um ótimo paralelo, pois, uma vez que Val tenta convencer Jéssica de que não teve outra opção, seu arrependimento é evidente ao tomar certa atitude mais tarde. Ora, se Val, mesmo em condições desfavoráveis, em busca de melhores condições de vida “abandona” a filha mas é capaz de reconhecer isso, Bárbara prefere transferir a culpa ao filho, chegando a perguntar várias vezes se o filho está drogado como forma de responsabilizar seu comportamento.

Se Bárbara e Val representam papéis muito mais presentes em uma sociedade de décadas atrás, os personagens de Jéssica e Fabinho podem ser vistos como a forma da juventude atual encarar o problema da desigualdade. Fabinho, mesmo demonstrando carinho por Val nunca se coloca na posição de defendê-la, sempre se mostrando mimado e infantil. Ele seria então a parcela que prefere ignorar o “elefante”, enquanto Jéssica, segura de si e inteligente, representaria aqueles que já compreendem a necessidade de condições mais igualitárias e do fim de uma hierarquia baseada em status social.

Naturalmente, nosso país ainda está muito longe disso. Porém, hoje a filha da empregada doméstica pode se sentar ao lado do filho da patroa numa sala de aula de uma universidade (se ele conseguir). Val diria que as coisas estão diferentes, mas diria isso com um sorriso que só quem tem amor e otimismo de sobra pode dar.

Catavento

Na escuridão o pensamento ecoa tanto que se torna ensurdecedor, pensou o Catavento.

Desde que aquele rigoroso inverno começou, um bom tempo atrás, Catavento não mais havia visto as cores. Muito menos o vento. Trancado naquela gaveta, enquanto o tempo se fazia de estátua, não podia mover-se.

Pensava nos outros. Estariam na mesma situação que ele? Se não, por que ele? O que ele fez de errado? Deveria ser simples, o vento sopra e o Catavento gira, certo?

Quem te sopra, Catavento?

Se lembra bem da última vez. Aquele vento era manso, constante, carinhoso. Soprava de todos os lados e amava a todos, de modo que todos o apreciavam também.

Mas houve dias em que choveu, muito, e nesses dias o vento ficava mudo.

E o silêncio fez com que o Catavento desejasse outros ventos.

E perdeu-se.

Perdeu-se na inocência que excita, na certeza que mente, na estrada que leva ao palácio dos prazeres eternos.

Onde nunca se chega.

Até que um dia, à beira de um lago, enquanto a brisa tentava lhe adoçar a razão, Catavento viu seu reflexo na água.

Onde estariam suas cores, seus contornos, seus amores, seus adornos?

Onde estariam seus sonhos?

Quem te sopra, Catavento?

No escuro, o Catavento escuta um som diferente.

Parece que tem algo batendo, é o som de uma janela batendo, é…

Um vento tentando abrir a janela!

Cada batida é como um chamado, seu nome ouvido no ranger das fibras, vem, Catavento, vem!

Não sabia como interpretar aquilo. Quem era? Por que agora?

Olhou pro tempo, que tentava disfarçar um sorriso. Catavento entendeu que não havia o que entender.

E Catavento foi.

E nas rotações que se seguiram, seus tons acinzentados e pálidos deram lugar a novas paletas de cores. Muitos ventos sopraram, uns generosos como colo de mãe, outros revoltos como ondas do mar. Mas todos eles tinham um propósito, uma missão, e Catavento compreendia.

E assim Catavento seguia girando, passando o passado para trás, quando foi tomado de súbito por um vendaval. Um vendaval não, um tornado. Um tornado não, um furacão.

Catavento não sabia como agir, o que pensar, como sentir.

Arrastado por aquela força devastadora, apenas mergulhou nas trevas e se deixou levar.

Sua consciência rodopiava em torno de uma espiral de medo, excitação, angústia, sonho e também realidade. Fora tomado por uma tempestade de areia do tempo, onde cada volta trazia uma cena de sua viagem existencial.

Seria este seu destino final?

O furacão passou.

Onde estou? Eu me sinto… nas nuvens! – pensou.

Catavento despertou.

Então viu.

Que ali ele podia ter o mundo.

Que dali ele podia ver a vida.

Mas e agora?

Quem te sopra, Catavento?

Ora, quem me sopra não é o vento.

Mas o tempo.

Contato humano

Tenho dificuldade com títulos de texto. Nunca me vem à mente uma expressão que resuma, perfeitamente, o que estou escrevendo. Seria mais fácil se fosse um roteiro de novela das oito. Aí colocava um alguma-coisa-família e pronto. Mas como não é (ainda bem), espero descobrir um bom título para este texto enquanto ele se projeta na tela do computador.

Mas sobre o que eu queria falar mesmo? Ah, sim, outro dia me deparei com uma foto de um casal, recém-casados, a moça eu conheci há um bom tempo. Em outra ocasião descobri que um conhecido iria se tornar pai. E experimentei uma estranha sensação quando descobri que uma ex-colega havia nos deixado pra sempre. Quem me mostrou tudo isso? A Internet, por intermédio das controversas redes sociais.

Fico feliz com a felicidade dos outros, ainda que não seja alguém próximo. Ou mesmo que seja um desconhecido. Me sinto bem, por exemplo, quando vou tirar fotos 3×4 (não por isso, obviamente) e vejo na vitrine, expostas, fotos de pessoas que jamais vi, mas que naquele instante registrado pelas lentes do fotógrafo, expressaram em seus olhares uma alegria genuína, ímpar.

Também fico triste pelas pessoas. Confesso que a sensação de dor, de angústia, solidão e medo me atraem ainda mais que a euforia. Talvez porque, quanto mais sou capaz de compreender essas sensações, mais me sentirei preparado para suas chegadas. Mais importante: me ajuda a descobrir como fazê-las partir.

Entretanto, é muito mais difícil conhecer o “lado negro” das pessoas, uma vez que, num claro mecanismo de auto-defesa, nós seres humanos escondemos nossas fraquezas num baú velho e pesado da mente, revelando-as somente para aqueles que possuem uma cópia da chave: família e amigos.

Com o advento das redes sociais, nos acostumamos a ver o dia-a-dia dos nossos amigos mais próximos, como num reality show produzido pelo próprio Zuckerberg e dirigido por nós mesmos. A questão é que, como ele é editado para mostrar apenas os bons momentos,  raramente se faz necessário um ombro amigo virtual.

Sinto muita falta de um simples “como cê tá?”, para que eu possa, sem filtros ou edições, dizer como eu me sinto de verdade. Expor meus medos e minhas angústias, me sentir vivo! E pra isso nada melhor que saber que há pessoas que se importam conosco, cujas vidas influenciamos. Dói demais se sentir só. A solidão é colega de quarto da morte.

Precisamos de menos likes e mais euteamos, menos posts e mais paposdebuteco. Precisamos mais de… de…

Contato humano. É isso! Acho que dá um bom título.