As ironias que vêm com o vento

Quarta-feira, 4 de novembro, terceiro dia como voluntário aqui no Antwerp Student Hostel. Logo pela manhã sou incumbido de levar uns doze cestos de lixo de 240 litros de volta para o subsolo, já que a coleta de lixo já havia recolhido tudo.

Antes de prosseguir, vale explicar como funciona esse tipo de trabalho. Há um site chamado worldpackers.com, onde é possível se inscrever em um ou vários das centenas de hostels cadastrados ao redor do mundo, para trabalhar durante um período de tempo. Em troca, hospedagem, alimentação (parcial ou completa, depende do hostel) e lavanderia. Ou seja, é uma ótima forma de aprimorar o idioma e conhecer lugares e pessoas novas gastando bem menos.

Jabá feito, voltemos ao texto. Lá estou eu trazendo os tais cestos de lixo de volta e entre uma saudade e outra, entre a lista mental do supermercado e o medo da chuva que deve cair, passo a reparar no que estou fazendo. É algo que muita gente se recusaria a fazer, certo? Como se um diploma na parede e/ou alguns zeros a mais na conta bancária (não que eu os tenha, vale lembrar) fossem capazes de colocar tal gente numa redoma inquebrável feita de hipocrisia e frustração, posicionada sob um pedestal donde se lê a legenda “Você sabe quem sou eu?”. Aliás, sobre isso recomendo esta ótima explanação do brilhante Mário Sérgio Cortella:

O fato é que eu estava até me divertindo, pois era algo que fazia pela primeira vez. Tudo que é novo traz sensações diferentes e você, leitor, se não procura notá-las quando faz algo novo, está deixando de descobrir um mundo infinitamente instigante: o seu eu.

Terminado o serviço, saio pra ir até o supermercado. O sol não veio, mas o vento me dá bom dia com um tapa frio no rosto (ele não sabe brincar). A rua é cheia de árvores e como é outono, está repleta de folhas também. Aliás, como é lindo o outono! As paisagens são ainda mais especiais, pois quem vive ao sul do Equador não vê isso ao vivo.

Eis que observo dois varredores da cidade do outro lado da rua. Um deles está fazendo uma pose com sua vassoura na mão enquanto o colega tira uma foto sua. A foto deve ter ficado bem legal pois, nessa hora havia não uma chuva de água, mas de folhas, com o vento a despir as árvores incessantemente (ele realmente não sabe brincar).

Nesse momento me peguei abrindo um sorriso gigante no rosto. Aquele homem estava orgulhoso e se sentindo realmente contente com seu trabalho. Algo que talvez seja mais comum por aqui, onde as tais redomas não resistem a uma atmosfera de menor desigualdade social e preconceito. Naquela hora eu me senti muito feliz por ver alguém fazendo algo que lhe dá prazer. Obviamente, o fato de ter feito um serviço do gênero minutos antes adicionou um toque de ironia ao fato. Meu sorriso foi ainda mais genuíno e confortante.

Portanto, é realmente triste ver existir uma segregação com base nisso, seja ela em qualquer país. Qualquer trabalho é nobre e honrado, desde que feito com dedicação. Não importa se é com uma caneta ou com uma vassoura na mão, um bisturi ou um serrote; a verdadeira riqueza está em fechar os olhos ao final do dia e saber que sua obra está ali, sólida como mármore, monumento eterno a impactar àqueles à sua volta, humilde tributo aos seres de bom coração.

Anna

Um dia de solidão e um passeio num parque da Antuérpia e decido contar um pouco da história de Anna. Mas talvez nem seja sua história. Talvez nem seja Anna.

Era outono, mas um atrevido dia de outono com muito sol e um imenso céu completamente azul, o que não era comum naquela época. Por essa razão o parque estava cheio, não só de crianças e sorrisos mas também de solidão e de pensamentos absortos.

Como os de Anna. Ela estava ali sentada observando um grupo de pequenas meninas brincando, e seu olhar poderia estar nelas mas elas não estavam em sua mente. Ela estava longe, tanto no tempo como no espaço, e o ser humano ainda não criou uma unidade de medida para isto.

Fazia uma semana desde o ocorrido. Entretanto talvez fosse esta a primeira vez em que estivesse realmente pensando sobre o fato. Não que não o tenha feito nos últimos dias, claro, mas como estava sempre à base de entorpecentes (trabalho, academia, estudo, tv e outras drogas legalizadas) as lembranças vinham mais como flashes, como bad trips, como punhaladas nas costas.

Tentou se distrair lendo um livro que comprara algumas semanas antes, mas não conseguiu ler mais do que dez, doze, quatro páginas. Fechou-o e abriu uma fenda no espaço-tempo para aquele dia. E lá ficou por horas, dias, mas não mais do que dois minutos na nossa contagem de tempo. Como dito, não se mede o tempo nem o tamanho do pensamento.

Anna era jovem, bonita, belos cabelos loiros e a pele como a de alguém nascida na realeza. O sol se apaixonou por ela e fazia com que seu rosto brilhasse por todo o tempo em que estivera ali. Desse modo, era compreensível que, algum homem ou mulher que por ali a visse pudesse sentir o mesmo que o sol.

Anna também era bela de alma, e sua energia poderia abastecer uma pequena cidade do interior. Isso também chamava a atenção de muitos. De um homem, em especial, cujo nome pode-se omitir pois não está à altura. Esse homem contou a ela uma história, mas o final era terrível. Como o final de Lost, alguns diriam. Anna também havia comprado esse livro, mas ele não ficou bem em sua estante.

Com a urgência de uma indústria, Anna subitamente retornou ao mundo material e se levantou de pronto. Verificou o celular, “Chris curtiu uma foto sua”, “Último dia da promoção de Halloween, não perca!”, bateria em 59%, só. Guardou-o, subiu em sua bicicleta e lembrou que tinha que comprar a comida do gato, mas hoje é domingo, teria que ir até o supermercado, que é mais longe, “acho que a comida ainda dá pra hoje”, foi direto pra casa, deitou-se na cama e chorou.

Segunda-feira também fez sol.

O fim do capitalismo começou

Nota: Este é um artigo original do The Guardian, de autoria de Paul Mason, o qual traduzi e compartilho aqui no blog. Para acessar o link original clique aqui.

O intuito é apenas de divulgação, sem nenhum fim lucrativo.

A qualidade da tradução não é excelente, portanto críticas ou sugestões serão bem vindas!


Sem perceber, estamos entrando na era pós-capitalista. No centro das mudanças  estão a tecnologia da informação, novos modelos de trabalho e a economia colaborativa. Os velhos meios vão levar um bom tempo para desaparecer, mas é hora de sermos utópicos

As bandeiras vermelhas e as canções de marcha do partido Syriza durante a crise grega, mais a expectativa da nacionalização dos bancos, reviveram brevemente um sonho do século XX: a destruição forçada do mercado de cima para baixo. Durante um bom período do século XX foi assim que a esquerda concebeu o primeiro estágio de uma economia além do capitalismo. A força poderia ser aplicada pela classe trabalhadora, através das urnas ou das barricadas. A alavanca seria o Estado. A oportunidade surgiria através de episódios frequentes de colapso da economia.

No entanto, nos últimos 25 anos o projeto da esquerda fracassou. O mercado destruiu o plano; o individualismo sobrepôs o coletivismo e a solidariedade; a expandida força trabalhadora mundial lembra o “proletariado”, mas nem de longe pensa ou se comporta como ele fez um dia.

Para quem viveu tudo isso e não aceitou o capitalismo, foi traumático. Mas neste processo a tecnologia criou uma nova rota de fuga, com o remanescente da antiga esquerda – e todas as outras forças influenciadas por ela – ou se unem ou morrem. Acontece que o capitalismo não será abolido através de revoluções ou conflitos. Será abolido criando-se algo mais dinâmico, quase inexistente dentro do sistema tradicional, mas que provocará um rompimento no sentido de remodelar a economia através de novos valores e comportamentos. Isto pode ser chamado de pós-capitalismo.

Assim como no fim do feudalismo 500 anos atrás, a substituição do capitalismo pelo pós-capitalismo será acelerada por forças externas e modelada pela emergência de um novo tipo de ser humano. E isso já começou.

O pós-capitalismo é possível porque a tecnologia da informação trouxe três grandes mudanças nos últimos 25 anos. Em primeiro lugar, reduziu a necessidade de trabalhar, ofuscou os limites entre trabalho e tempo livre e enfraqueceu a relação trabalho-remuneração. Há uma onda de automação por vir, hoje estagnada pelo fato de que nossa infraestrutura social não consegue lidar com as consequências, e que irá diminuir severamente a quantidade de trabalho necessário – não apenas para subsistência mas também para fornecer uma vida decente acima de tudo.

Em segundo lugar, a informação está corroendo a habilidade do mercado de estabelecer preços corretamente. Isto porque os mercados são baseados em escassez enquanto informação é abundante. O mecanismo de defesa do sistema é a formação de monopólios – as gigantes de tecnologia – numa escala nunca vista nos últimos 200 anos, mas isto também não vai durar. Construindo modelos de negócios e estimativas de valores de ações baseado na privatização da informação produzida pela sociedade, estas empresas estão construindo um frágil império em desacordo com a necessidade mais básica da humanidade, que é a liberdade do uso de ideias.

Por último, o que se vê é um crescimento espontâneo de produção colaborativa: bens, serviços e organizações estão surgindo sem responder às regras do mercado e à hierarquia corporativa. O maior produto da informação no mundo – a Wikipédia – é feito por voluntários, abolindo o negócio de enciclopédias e privando a indústria da propaganda de cerca de 3 bilhões de dólares por ano em renda.

Quase despercebidos, nos nichos e reentrâncias do mercado, termos inteiros da vida econômica estão começando a se mover num ritmo diferente. Moedas paralelas, time banks, cooperativas e espaços autoadministrados proliferaram, mal notados pelos economistas, e quase sempre como resultado direto da ruptura com as estruturas tradicionais após a crise de 2008.

Só se é capaz de encontrar esta nova economia se procurar com afinco. Na Grécia, ao tentar mapear projetos cooperativos de alimentos no país, como produtores alternativos, moedas paralelas e sistemas de comércio locais, uma ONG descobriu mais de 70 projetos substanciais e centenas de iniciativas menores surgindo desde projetos de carona solidária até pré-escolas de graça. Para a corrente tradicional da economia, tais exemplos mal são classificados como atividades econômicas – mas este é o ponto. Eles existem porque negociam, mesmo que de maneira imperfeita ou ineficiente, utilizando moedas do pós-capitalismo: o tempo livre, atividades integradas e compartilhamentos. Isto tudo parece ser algo deficiente, não oficial e mesmo perigoso para se considerar como uma alternativa a todo um sistema global, mas, do mesmo modo, foi também o surgimento do crédito e do dinheiro nos tempos do rei Eduardo III.

Novas formas de aquisição, novas formas de empréstimos, novos contratos legais: toda uma subcultura de negócios emergiu nos últimos 10 anos, tratada pela mídia como “economia colaborativa”. Termos como “commons” e “produção P2P” se proliferam, mas poucos se perguntaram o que seu desenvolvimento significa para o capitalismo em si.

Acredita-se que oferecem uma rota alternativa – mas apenas se estes microprojetos forem nutridos, promovidos e protegidos por uma mudança fundamental nas ações governamentais. E isso pode acontecer com uma mudança na maneira como pensamos – sobre tecnologia, propriedade e trabalho. Então, quando os elementos do novo sistema forem criados, podemos dizer: “Isto não é somente meu mecanismo de sobrevivência, meu refúgio do mundo neoliberal; isto é um jeito novo de viver em processo de formação.”

A crise de 2008 derrubou 13% da produção e 20% do comércio mundial. O crescimento global foi negativo – numa escala onde qualquer coisa abaixo de um crescimento de 3% é considerada recessão. A crise produziu, no Ocidente, uma fase de depressão mais longa do que a de 1929-33, e mesmo agora, durante uma tímida recuperação, deixou os economistas tradicionais apavorados com a projeção de uma estagnação de longo prazo. As consequências na Europa estão dividindo o continente.

As soluções admitidas têm sido austeridade e excesso de oferta de moedas. Mas não estão funcionando. Nos países mais atingidos pela crise, a previdência foi destruída, a idade de aposentadoria foi aumentada para 70 anos e a privatização da educação está gerando dívidas para uma vida toda aos graduados. Serviços estão sendo descontinuados e projetos de infraestrutura suspensos.

Mesmo agora muitas pessoas não são capazes de compreender exatamente o significado da palavra “austeridade”. Austeridade não são oito anos de cortes de gastos, como no Reino Unido, ou ainda uma catástrofe social como aconteceu na Grécia. Significa contenção de salários, benefícios e padrões de vida ocidentais por décadas até que se equiparem aos da classe média chinesa e hindu que estão indo na direção oposta.

Enquanto isso, na ausência de um modelo alternativo, as condições para uma nova crise estão sendo reunidas. O valor do salário real caiu ou permaneceu estagnado no Japão, no sul da zona do Euro, nos EUA e no Reino Unido. O sombrio sistema bancário foi reestruturado e é agora maior do que era em 2008. Novos bancos com regras mais rigorosas detêm mais reservas, mas foram diluídos ou adiados. Enquanto isso, abastecidos com dinheiro livre, o 1% ficou mais rico.

Deste modo, o neoliberalismo se converteu num sistema programado para infringir falhas catastróficas recorrentes. Pior do que isso, anulou um padrão de 200 anos de capitalismo industrial no qual, a cada crise econômica, inovações tecnológicas surgiam rapidamente para trazer benefício a todos.

Isto se deve ao fato de que o neoliberalismo foi o primeiro modelo econômico em 200 anos cujo crescimento se baseou na premissa de cortes de salários, destruição do poder social e da resistência da classe trabalhadora. Se analisados os pontos de partida dos períodos estudados por teóricos de ciclos longos – 1850 na Europa, 1900 e 1950 ao redor do mundo – foi a força do proletariado organizado responsável por fazer empresários e corporações interromperem suas tentativas de implantar modelos de negócios obsoletos, através de cortes de salários, e inovarem na obtenção de um novo formato de capitalismo.

Os resultados trazem, a cada período de crescimento, um aumento da automação, da remuneração e do consumo de alto valor. Hoje não há pressão da força de trabalho, e a tecnologia no centro desta onda de inovação não demanda a criação de padrões mais altos de consumo ou o remanejamento da velha força de trabalho em novos empregos. A informação é uma máquina utilizada para moer os preços e torná-los mais baixos e dilacerar o tempo de trabalho gasto para manter a vida na Terra.

Como resultado, grande parte da classe empresarial se tornou neoludita. Confrontados com a possibilidade de criar laboratórios de sequenciamento genético, investem, em vez disso, na criação de cafeterias, esmalterias e serviços de conservação e limpeza: a recompensa do sistema bancário, do sistema de planejamento e da mais recente cultura neoliberal por toda a criação de trabalhos mal remunerados e com longas jornadas.

Inovações estão acontecendo, mas até agora, não deram início ao quinto período de crescimento ao capitalismo que a teoria dos ciclos longos esperava. As razões residem na natureza específica da tecnologia da informação.

Estamos cercados não somente por máquinas inteligentes, mas por um novo nível de realidade centrada na informação. Considere uma aeronave: ela é controlada por um computador; foi desenvolvida, testada e “construída virtualmente” milhões de vezes; envia informação em tempo real para o fabricante de volta. As pessoas a bordo estão olhando atentamente para telas conectadas, em alguns países com mais sorte, à internet.

Vista do lado de fora a aeronave é o mesmo pássaro branco de metal como nos tempos de James Bond. Mas hoje é também uma máquina inteligente e um ponto na rede. Possui informações que adicionam tanto “valor informativo” como valor físico ao mundo. Enquanto na classe executiva todos estão trabalhando no Excel ou no Powerpoint, a classe convencional pode ser tratada como uma fábrica de informações.

Mas para que vale toda esta informação? A resposta não se encontra na contabilidade: propriedade intelectual é mensurada em novos padrões de contabilidade através de estimativas. Um estudo feito para o Instituto SAS em 2013 descobriu que, na tentativa de atribuir valor a dados, nem o custo de aquisição, nem o valor de mercado ou a receita obtida poderiam ser calculadas adequadamente. As empresas só poderiam explicar de fato aos seus investidores o valor real de seus dados através de métodos que incluem benefícios não econômicos e riscos. Isto quebra a lógica utilizada de atribuir valor ao elemento mais importante do mundo moderno.

O grande avanço tecnológico do século XXI consiste não somente na criação de novos objetos e processos, mas também de tornar os antigos mais inteligentes. O conteúdo intelectual dos produtos está se tornando mais valioso do que os aspectos físicos usados para produzi-los. Mas é valor em termos de utilidade, não de comércio ou valor patrimonial. Nos anos 90 economistas e tecnólogos começaram a ter um mesmo vislumbre: de que o novo papel da informação começava a criar um novo, um “terceiro” tipo de capitalismo – tão diferente do capitalismo industrial quanto este com relação ao capitalismo mercantil e escravocrata dos séculos XVII e XVIII. Mas eles têm se esforçado para descrever a dinâmica de um novo capitalismo “cognitivo”. E por uma razão. Essa dinâmica é profundamente não capitalista.

Durante e logo depois da 2ª Guerra Mundial, os economistas enxergavam a informação simplesmente como um “bem público”. O governo americano chegou a decretar que nenhum lucro deveria ser obtido através de patentes, apenas dos processos de produção em si. Então se começou a compreender a propriedade intelectual. Em 1962, Kenneth Arrow, o guru da economia tradicional, disse que em um mercado livre o propósito de se inventar coisas é o de criar direitos de propriedade intelectual. Ele observa: “precisamente, à medida que é bem sucedido há uma subutilização da informação.”

É possível observar a veracidade disto em cada modelo de comércio eletrônico já implantado: monopólio e proteção de dados, captura de dados de redes sociais gerados pelos usuários, uso de fins comerciais em áreas de produção de dados antes não comerciais, utilização de dados existentes para previsão de valor – além da garantia de que ninguém além da organização nunca poderá acessar os resultados.

Se o princípio de Arrow for formulado de maneira reversa, suas implicações revolucionárias são óbvias: se uma economia de livre mercado e propriedade intelectual leva à “subutilização de informação”, então uma economia baseada na completa utilização de informação não poderia tolerar o livre mercado ou direitos absolutos de propriedade intelectual. Os modelos de negócio de todas as gigantes de tecnologia do mundo moderno são desenvolvidos para prevenir a abundância de informação.

Ainda assim informação é abundante. Os benefícios gerados por ela são livremente replicados. Uma vez que algo é criado, pode ser copiado/colado infinitamente. Uma música ou a gigantesca base de dados utilizada para construir uma aeronave tem um custo de produção; mas seu custo de reprodução tende a zero. Por essa razão, se o mecanismo de precificação comum do capitalismo prevalece em função do tempo, seu preço também tenderá a zero.

Nos últimos 25 anos a economia tem lutado contra este problema: toda a economia tradicional provém de uma condição de escassez, embora a força mais dinâmica do mundo moderno seja abundante e, como o gênio hippie Stewart Brand disse certa vez “quer ser livre”.

Juntamente com um mundo de informação e vigilância monopolizados por corporações e governos, há uma dinâmica diferente crescendo em torno da informação: informação como um bem social, livre no instante de sua utilização, incapaz de ser adquirida, explorada ou precificada. Eu tenho pesquisado sobre as tentativas de economistas e gurus de negócios em construir um esboço que ajude a entender a dinâmica de uma economia baseada em informação abundante e socialmente transmitida. Mas isto foi na verdade imaginado por um economista do século XIX em plena era do telégrafo e da máquina a vapor. Seu nome? Karl Marx.

O cenário é Kentish Town, Londres, fevereiro de 1858, 4 da manhã. Marx é um homem procurado na Alemanha e não é fácil trabalhar apenas rascunhando experimentos em seus pensamentos e notas a si mesmo. Quando finalmente virem o que Marx estava escrevendo naquela noite, os intelectuais de esquerda dos anos 60 vão admitir que “desafia qualquer interpretação séria que Marx já concebeu”. Estes pensamentos são chamados de “O Fragmento Sobre as Máquinas”.

Em seu “Fragmento” Marx imagina uma economia na qual o papel principal das máquinas é produzir, e o papel principal das pessoas é supervisioná-las. Ele deixa claro que, neste cenário, a força produtiva principal seria a informação. A força produtiva de máquinas como o telégrafo, a locomotiva a vapor ou uma máquina de fiar algodão automatizada não dependeriam da quantidade de trabalho necessário para produzi-las, mas sim do estado de conhecimento social. Organização e conhecimento, em outras palavras, dariam uma contribuição maior à força produtiva do que o trabalho desprendido em fabricar e operar tais máquinas.

Com base no que o Marxismo viria a se tornar – uma teoria sobre exploração baseada no roubo do tempo de trabalho – esta é uma declaração revolucionária. Sugere que, uma vez que o conhecimento se torna uma força produtiva, sobrepondo o trabalho real gasto na criação de uma máquina, a grande questão não é mais “salários versus lucros”, mas sim sobre quem controla o que Marx chamou de “poder do conhecimento”.

Em uma economia onde as máquinas fazem a maior parte do trabalho, a natureza do conhecimento inserido nessas máquinas precisa ser “social”, ele escreve. Em um experimento de pensamento final Marx imaginou o ponto final de sua trajetória: a criação de uma “máquina ideal”, que duraria eternamente e não custaria nada. Uma máquina que poderia ser construída sem custos não tornaria o processo de produção mais caro e após vários períodos contábeis, seria capaz de aumentar as margens de lucro e reduzir os custos trabalhistas de qualquer processo em que estivesse envolvida.

A partir do momento em que se entende que a informação é física e que um software é uma máquina; que armazenamento, largura de banda e poder de processamento estão com seus preços entrando em colapso e em taxas exponenciais, o valor do pensamento de Marx se torna claro. Todos estão cercados por máquinas que não custam nada e poderiam, se quisessem, durar eternamente.

Através destas reflexões, nunca publicadas até a metade do século XX, Marx imaginava a informação chegando e sendo armazenada e compartilhada em algo chamado “intelecto geral” – que seria as mentes de todo mundo na Terra conectadas por conhecimento social, no qual qualquer upgrade beneficiaria a todos. Em suma, Marx imaginou algo próximo da economia de informação na qual vivemos. Sua existência “mandaria o capitalismo pelos ares”, ele escreveu.

Com o terreno modificado, o velho caminho além do capitalismo imaginado pela esquerda do século XX está perdido.

Mas um novo caminho se abriu. Esta nova rota além do sistema de mercado é definida pela produção colaborativa, usando tecnologia interligada para produzir bens e serviços que só funcionam quando são livres, ou compartilhados. Será preciso que o estado crie a estrutura – assim como criou a estrutura do trabalho industrial, moedas fortes e comércio livre no começo do século XIX. O setor pós-capitalista está destinado a coexistir com o setor do mercado por décadas, mas uma mudança maior está acontecendo.

As redes restauram “granularidade” ao projeto pós-capitalista. Ou seja, elas podem ser a base de um sistema fora do mercado que se replica sozinho, que não necessita ser criado novamente todas as manhãs na tela do computador de um comissário comunista.

A transição envolverá o Estado, o mercado e a produção colaborativa além do mercado. Mas para que ela aconteça, todo o projeto da esquerda, desde grupos de protestos aos partidos liberais e social democráticos tradicionais, terá que ser reconfigurado. Na verdade, uma vez que as pessoas entenderem a lógica da transição pós-capitalista, tais ideias deixarão de ser propriedade da esquerda – mas de um movimento muito mais amplo, para o qual será preciso definir novos rótulos.

Quem pode fazer isso acontecer? No projeto antigo da esquerda, era a classe trabalhadora industrial. Mais de 200 anos atrás, o jornalista radical John Thelwall alertou os construtores das fábricas inglesas de que eles haviam criado uma nova e perigosa forma de democracia: “Toda grande linha de produção é um tipo de sociedade política, que nenhuma ação do parlamento pode silenciar e nenhum juiz pode dispersar.”

Atualmente, toda a sociedade é uma fábrica. Todos nós participamos na criação e na recriação das marcas, normas e instituições que nos cercam. Ao mesmo tempo, os sistemas de comunicação tão vitais para o trabalho diário e geração de lucro estão fazendo barulho devido a conteúdo compartilhado e ilegal. Hoje é a internet – como as linhas de produção há 200 anos – que “não pode ser silenciada ou dispersada”.

Sim, os governos podem bloquear o Facebook, o Twitter, até mesmo a internet inteira e a telefonia móvel em tempos de crise, paralisando a economia no processo. E também podem armazenar e monitorar cada kilobyte de informação produzida. Mas não podem impor novamente uma sociedade hierárquica, manipulada e ignorante de 50 anos atrás, exceto – como ocorre na China, Coreia do Norte ou Irã – se não optarem por aspectos chave da vida moderna. Como o sociólogo Manuel Castells colocou, seria como tentar tirar toda a energia elétrica de um país.

Através de milhões de pessoas conectadas, exploradas financeiramente mas com toda a inteligência humana a um deslizar de polegar de distância, o info-capitalismo criou um novo agente de mudança na história: o ser humano educado e conectado.

Será mais do que simplesmente uma transição econômica. Existem as tarefas urgentes e paralelas de descarbonizar o mundo e lidar com as bombas relógio fiscais e demográficas, é claro. Mas estou focando na transição econômica disparada pela informação porque, até agora, ela foi colocada de lado. Peer-to-peer ficou categorizado como uma obsessão de nicho para visionários, enquanto os “garotões” mais radicais da economia seguem criticando a austeridade.

Na verdade, quando se trata de locais como a Grécia, a resistência à austeridade e a criação de “redes que não se pode reinicializar” – como um ativista colocou – passam de mão em mão. Acima de tudo, o pós-capitalismo como um conceito é sobre novas formas do comportamento humano que a economia convencional teria dificuldade de reconhecer como relevantes.

Então como nós visualizamos a transição adiante? O único paralelo coerente é a substituição do feudalismo pelo capitalismo – e graças ao trabalho de epidemiologistas, geneticistas e analistas de dados, sabemos muito sobre esta transição do que sabíamos há 50 anos quando foi “dominada” pelas ciências sociais. A primeira coisa que temos que reconhecer é: modos de produção diferentes são estruturados em torno de coisas diferentes. O feudalismo era um sistema econômico estruturado por costumes e leis relacionados a “obrigação”. O capitalismo era estruturado por algo puramente econômico: o mercado. Podemos predizer, através disso, que o pós-capitalismo – cuja pré-condição é a abundância – não será simplesmente uma forma modificada de uma sociedade de mercado complexa. Mas só é possível começar a compreendê-lo sob uma ótica positiva do que ele pode ser.

Isto não significa que é um meio de evitar a questão: os parâmetros gerais da economia de uma sociedade pós-capitalista, no ano de 2075, por exemplo, estão definidos? Se uma sociedade é estruturada em torno da liberdade humana, não da economia, coisas imprevisíveis vão começar a modelá-la.

Por exemplo: para Shakespeare, escrevendo em 1600, era óbvio que o mercado havia convocado novos tipos de comportamento e moralidade. Por analogia, o que seria “economicamente” óbvio para o Shakespeare de 2075 é a total sublevação em relacionamentos do mesmo gênero, sexualidade ou do cuidado com a saúde. Talvez não haja sequer dramaturgos: talvez a própria natureza da mídia como a usamos para contar histórias mudará – assim como mudou na Londres elisabetana quando os primeiros teatros públicos foram construídos.

Pense na diferença entre, digamos, Horácio em Hamlet e um personagem como Daniel Doyce no romance de Charles Dickens A Pequena Dorrit. Ambos carregam consigo uma obsessão característica de sua época – Horácio é obcecado com a filosofia humanista; Doyce é obcecado em patentear sua invenção. Não pode haver um personagem de Shakespeare como Doyce; ele poderia, no máximo, ter um pequeno papel como uma figura cômica da classe operária. Porém, assim que Dickens descreve Doyce, muitos dos seus leitores o identificariam com alguém que conhecessem. Do mesmo modo que Shakespeare não poderia ter imaginado Doyce, nós também não podemos imaginar que tipo de pessoas a sociedade irá criar uma vez que a economia não seja mais essencial à vida. Mas podemos ver suas formas prefigurativas nas vidas dos jovens por todo o mundo quebrando barreiras do século XX sobre sexualidade, trabalho, criatividade e sobre si mesmos.

O modelo feudal de agricultura colidiu, primeiramente, com os limites do meio ambiente e depois com um choque externo massivo – a peste negra. Com isso, houve um choque demográfico: pouquíssima gente para trabalhar com a terra, o que aumentou seus salários e tornou o antigo sistema de obrigações feudal impossível de ser aplicado. A deficiência de trabalhadores também forçou as inovações tecnológicas. As novas tecnologias que suportaram a ascensão do capitalismo mercantil foram aquelas que estimularam o comércio (imprensa e contabilidade), a exploração (mineração, a bússola e navios rápidos) e produtividade (matemática e método científico).

Durante todo o processo estava presente algo que parece acidental com relação ao sistema antigo – dinheiro e crédito – mas que estavam na verdade destinados a se tornarem a base de um novo sistema. No feudalismo, muitas leis e costumes foram moldados ignorando o dinheiro; no ápice do feudalismo o crédito era visto como pecaminoso. Assim, quando o dinheiro e o crédito romperam as barreiras impostas na direção de um novo sistema de mercado, foi como uma revolução. Depois, o que deu energia ao novo sistema foi a descoberta de uma fonte virtual ilimitada de riqueza livre nas Américas.

Uma combinação de todos estes fatores levou uma série de pessoas, marginalizadas pelo feudalismo – humanistas, cientistas, construtores, advogados, religiosos radicais e escritores boêmios como Shakespeare – a serem alçadas ao posto de líderes da transformação social. Nos momentos chave, embora experimentalmente a princípio, o Estado passou de tentar impedi-la a promovê-la.

Hoje, o que está corroendo o capitalismo é a informação, algo negligenciado pela economia tradicional. Muitas leis acerca da informação definem o direito das organizações de preservá-la e dos estados de acessá-la, apesar dos direitos humanos dos cidadãos. O equivalente à prensa e ao método científico é a tecnologia da informação e sua proliferação sobre todas as outras tecnologias, desde a genética até a saúde, agricultura e cinema, onde está rapidamente reduzindo custos.

O equivalente moderno à longa estagnação do feudalismo em seu final é o atraso da terceira revolução industrial, ao passo que, em vez de rapidamente tornar o trabalho menos importante, somos reduzidos a criar o que David Graeber chama de “trabalhos de merda” com baixa remuneração. E muitas economias estão se estagnando.

Qual seria o equivalente à nova fonte de livre riqueza? Não é exatamente uma riqueza: são as “externalidades” – conteúdo livre e benefícios gerados por conexões interativas. É a ascensão da produção fora do mercado, de informação não conhecida, de redes de compartilhamento e empresas sem hierarquia definida. O economista francês Yann Moulier-Boutang diz que a internet é “o navio e também o oceano” sob a ótica do equivalente moderno do descobrimento do Novo Mundo. Na verdade, ela é o navio, a bússola, o oceano e o ouro.

Os choques externos modernos são claros: crise energética, mudanças climáticas, envelhecimento da população e migração. Eles estão alterando a dinâmica do capitalismo e tornando-o impraticável no longo prazo. Não tiveram ainda o mesmo impacto de uma peste negra – mas como visto em Nova Orleans em 2005, não é preciso uma peste bubônica para destruir a ordem social e a infraestrutura funcional numa sociedade financeiramente complexa e empobrecida.

Uma vez que a transição seja compreendida desta maneira, não é necessário o desenvolvimento super computadorizado de um Plano de Cinco Anos – mas um projeto, cujo objetivo seja expandir tais tecnologias, modelos de negócios e comportamentos que dissolvam as forças do mercado, socializem o conhecimento, erradiquem a imprescindibilidade de trabalho e impulsionem a economia na direção da abundância. Eu chamo isto de Projeto Zero – porque suas metas são: um sistema com energia zero carbono; a produção de máquinas, produtos e serviços com custo marginal zero; e a redução de tempo necessário de trabalho tão próxima quanto possível de zero.

Muitos esquerdistas do século XX acreditavam que não teriam o privilégio de uma transição administrada: para eles havia um dogma de que nada do sistema recente poderia coexistir com o sistema antigo – embora a classe trabalhadora sempre tentasse criar uma vida alternativa dentro e “apesar” do capitalismo. Como resultado, uma vez que a possibilidade de uma transição ao estilo soviético desapareceu, a vida moderna resumiu-se à preocupação com coisas opostas: privatização da saúde, leis anti-sindicato, etc.

Se eu estou certo, o meio mais lógico para os apoiadores do pós-capitalismo é criar alternativas dentro do sistema; usar o poder governamental de uma maneira radical e separatista; direcionar todas as ações em prol da transição – não na defesa de elementos aleatórios do sistema antigo. Temos que aprender a identificar o que é urgente e o que é importante, e, às vezes, eles não são coincidentes.

O poder da imaginação se tornará crítico. Numa sociedade da informação, nenhum pensamento, debate ou sonho é desperdiçado – independente de ser concebido num acampamento, na cela de uma prisão ou na sala de recreação de uma startup.

Assim como na manufatura virtual, na transição para o pós-capitalismo o trabalho feito na fase de desenvolvimento pode reduzir os erros na fase de implementação. E o desenvolvimento de um mundo pós-capitalista, assim como um software, pode ser modular. Pessoas diferentes podem trabalhar em lugares diferentes, em velocidades diferentes e com relativa autonomia em relação aos outros. Se eu pudesse invocar a existência de algo de graça, seria uma instituição global que modelasse o capitalismo corretamente: um modelo de código aberto da economia inteira; oficial, cinza e preto. Todo experimento realizado através deste modelo o enriqueceria; seria de código aberto e com tantos dados quanto os modelos climáticos mais complexos.

A principal contradição hoje é entre a possibilidade de obtenção de informação e bens livres e abundantes; e um sistema de monopólios, bancos e governos tentando manter tudo em sigilo, escasso e comercial. Tudo se resume ao embate entre a rede e a hierarquia: entre velhos formatos de sociedade moldados em torno do capitalismo e novos formatos de sociedade que preveem o que está por vir.

É utópico acreditar que estamos no limiar de uma evolução do capitalismo? Vivemos num mundo onde homossexuais podem se casar e no qual a contracepção, num espaço de 50 anos, fez com das mulheres trabalhadoras de classe média mais livres do que as mais radicais libertinas dos tempos de Bloomsbury. Por que achamos, então, tão difícil de imaginar uma liberdade econômica?

São as elites – corta para o mundo de suas limusines pretas – cujos projetos são tão desanimadores quanto àqueles dos sectários milenares do século XIX. A democracia de esquadrões anti-protesto, políticos corruptos, jornais controlados por magnatas e a vigilância dos governos é tão falsa e frágil quanto à da Alemanha Ocidental há 30 anos.

Todos os escritos da história humana tem que permitir a possibilidade de um resultado negativo. Caçados num filme de zumbi, filmes-catástrofe, desertos pós-apocalípticos de filmes como A Estrada ou Elysium. Mas por que não se pode formar a figura de uma vida ideal, feita de informação em abundância, empregos sem hierarquia e dissociação do salário com o trabalho?

Milhões de pessoas estão começando a perceber que venderam a elas sonhos que a realidade não é capaz de realizar. Elas respondem com raiva – e recuar para formas de capitalismo nacionais que só fazem dividir o mundo ainda mais. Observando estes grupos surgir, desde as facções de esquerda pró-Grexit no Syriza até a Frente Nacional e o isolacionismo da direita norte-americana, é como ver os pesadelos que tivemos durante a crise do Lehman Brothers se tornando realidade.

Precisamos mais do que um bando de sonhos utópicos e projetos horizontais de pequena escala. Precisamos de um projeto baseado na razão, evidência e modelos testáveis, que rompa com raízes históricas e que seja sustentável. E precisamos avançar com isso.

A Tela no Texto – Janela Indiscreta, de Sir Alfred Hitchcock

Volto aos textos no blog depois de quase um ano (!) para falar de algo que é uma das minhas maiores paixões na vida: o cinema. Mais especificamente, sobre esta fascinante obra do Mestre do Suspense, Sir Alfred Hitchcock.

O diretor com uma claquete durante as filmagens de “Psicose”

Para quem nunca viu nada desse camarada, certamente já deve ter visto pelo menos alguma referência à icônica cena do chuveiro do mesmo Psicose:

Lembrou do Super Cine? Pois é, daria pra fazer uma maratona de Super Cine só com seus filmes. Com uma observação, óbvia: estes são muito melhores do que a grande maioria dos suspenses meia boca que passaram por lá.

Deixando nossos sábados à noite de tédio de lado, venho falar aqui deste excelente Janela Indiscreta, de 1954 (existe uma versão de 1998 com o saudoso Christopher Reeve, fuja). O renomado fotógrafo L.B. Jefferies, depois de sofrer um acidente que o deixa de molho por 7 semanas, passa os dias na janela de seu apartamento observando a vizinhança. Este exercício de observação dos hábitos alheios se torna intenso o bastante a ponto de fazê-lo criar apelidos para cada um, como a “Srta. Busto”, a “Srta. Solitária”, o “Pianista”, etc.

Justamente por conhecer seus hábitos tão a fundo, Jeff é capaz de criar uma teoria que envolve um vizinho em específico, apenas por observar atos que geralmente não fazem parte do seu cotidiano. Sem poder sair de seu apartamento, ele acaba fomentando uma investigação da qual fazem parte um amigo detetive, sua enfermeira e a futura esposa que ele reluta em aceitar: Lisa, interpretada por Grace Kelly, uma princesa – literalmente.

O plano que abre o filme é preciso e imprescindível ao espectador por mostrar todo o ambiente que cerca a janela do apartamento de Jeff. Dessa forma, o espectador fica situado como o personagem.

O plano inicial do filme representado por esta imagem panorâmica

O plano inicial do filme representado por esta imagem panorâmica

Sir Hitchcock (como deve ser legal ser um Sir) utiliza aqui um recurso sensacional: praticamente toda a ação do filme é mostrada apenas da visão da janela de Jeff, colocando o espectador lá, na cadeira de rodas, despertando nele as mesmas curiosidades, dúvidas ou angústias do personagem. Este recurso tem duas funções principais: cria todo o suspense da trama, através da falta de conhecimento dos fatos e da impossibilidade de ação, como também serve para ilustrar tudo o que discutirei nos dois próximos parágrafos.

Pois é através do desenvolvimento da narrativa a partir deste cenário que Sir Hitchcock aproveita para levantar alguns questionamentos morais e sobre as relações humanas, valendo-se de bons diálogos, mas também de algumas cenas bem tocantes. Afinal de contas, é na intimidade de nossos lares que podemos ser quem somos, sem se preocupar com as aparências, julgamentos ou pudores.

Ora, quem de nós, também conhecendo alguns hábitos de nossos vizinhos, nunca fizemos comentários do tipo “Fulano chegando em casa a essa hora” ou “Ciclano não dá festas há algum tempo, deve tá namorando”? Isso é inerente ao ser humano, a curiosidade pela vida alheia, que garante sucessos de mídia que vão desde o Big Brother até àquele que é a grande vizinhança do mundo, o Facebook. Neste filme, o personagem de Jeff é a representação daquelas senhoras sentadas à varanda em cidadezinhas do interior (alô, Ituiutaba!) fazendo fofoca, ou, por que não, é a representação, em maior ou menor grau, de nós mesmos.

Mas é no desenvolvimento do mistério central que reside toda a dinâmica do filme. Em alguns momentos temos vontade de “saltar pra dentro da tela” e agir, tamanha a angústia! Mas não, Sir Hitchcock já nos colocou ali “sendo” Jeff, e uma perna engessada não nos permite fazer muita coisa. Essa tensão só aumenta à medida que vamos nos aproximando do clímax e confesso que, pela maneira como os fatos foram ocorrendo, imaginei que o final seria outro, mais trágico. Entretanto, admito que ele não se encaixaria tão bem, pela temática utilizada (inclusive não farei nenhum comentário para não dar spoiler, mas gostaria de discutir com quem já viu ou depois que assistir o filme).

No mais, Janela Indiscreta pode ser definido como uma autêntica obra de suspense que ainda suscita uma boa discussão sobre o cotidiano e o comportamento humano, sobre como o fato de seu vizinho sair às duas da manhã debaixo de chuva pode não significar nada – ou algo terrível.

Contato humano

Tenho dificuldade com títulos de texto. Nunca me vem à mente uma expressão que resuma, perfeitamente, o que estou escrevendo. Seria mais fácil se fosse um roteiro de novela das oito. Aí colocava um alguma-coisa-família e pronto. Mas como não é (ainda bem), espero descobrir um bom título para este texto enquanto ele se projeta na tela do computador.

Mas sobre o que eu queria falar mesmo? Ah, sim, outro dia me deparei com uma foto de um casal, recém-casados, a moça eu conheci há um bom tempo. Em outra ocasião descobri que um conhecido iria se tornar pai. E experimentei uma estranha sensação quando descobri que uma ex-colega havia nos deixado pra sempre. Quem me mostrou tudo isso? A Internet, por intermédio das controversas redes sociais.

Fico feliz com a felicidade dos outros, ainda que não seja alguém próximo. Ou mesmo que seja um desconhecido. Me sinto bem, por exemplo, quando vou tirar fotos 3×4 (não por isso, obviamente) e vejo na vitrine, expostas, fotos de pessoas que jamais vi, mas que naquele instante registrado pelas lentes do fotógrafo, expressaram em seus olhares uma alegria genuína, ímpar.

Também fico triste pelas pessoas. Confesso que a sensação de dor, de angústia, solidão e medo me atraem ainda mais que a euforia. Talvez porque, quanto mais sou capaz de compreender essas sensações, mais me sentirei preparado para suas chegadas. Mais importante: me ajuda a descobrir como fazê-las partir.

Entretanto, é muito mais difícil conhecer o “lado negro” das pessoas, uma vez que, num claro mecanismo de auto-defesa, nós seres humanos escondemos nossas fraquezas num baú velho e pesado da mente, revelando-as somente para aqueles que possuem uma cópia da chave: família e amigos.

Com o advento das redes sociais, nos acostumamos a ver o dia-a-dia dos nossos amigos mais próximos, como num reality show produzido pelo próprio Zuckerberg e dirigido por nós mesmos. A questão é que, como ele é editado para mostrar apenas os bons momentos,  raramente se faz necessário um ombro amigo virtual.

Sinto muita falta de um simples “como cê tá?”, para que eu possa, sem filtros ou edições, dizer como eu me sinto de verdade. Expor meus medos e minhas angústias, me sentir vivo! E pra isso nada melhor que saber que há pessoas que se importam conosco, cujas vidas influenciamos. Dói demais se sentir só. A solidão é colega de quarto da morte.

Precisamos de menos likes e mais euteamos, menos posts e mais paposdebuteco. Precisamos mais de… de…

Contato humano. É isso! Acho que dá um bom título.

Para Rússia Com Amor

Ela chegou desacreditada, tal qual Susan Boyle ao se apresentar no palco do Programa Raul Gil bretão. E assim como a cantora, a Copa do Mundo no Brasil surpreendeu a todos, dentro e fora das quatro linhas.

Confesso que fui um dos críticos. Usei o #imaginanaCopa em alguns dos meus inúmeros posts chatos, amaldiçoei a FIFA pelas próximas 327 gerações e até pensava em torcer contra a seleção após cada entrevista coletiva do Felipão (e que nem chegaram perto do surrealismo da última).

As críticas não eram infundadas. Estádios nascidos grandes elefantes brancos, como Arena Amazônia, Arena Pantanal e o Mané Garrincha reformado; outros sem necessidade, como Arena das Dunas em Natal e Itaquerão (opa, eu disse Itaquerão? é Arena Corinthians, desculpa, Andrés). As obras de infraestrutura, legado para o povo depois que a Copa se for, hoje são tão reais quanto a possibilidade da Inglaterra ser campeã do mundo. Havia (há) tudo isso e muito mais e o povo brasileiro ainda acrescentou mais uns vinte centavos, gerando uma série de manifestações que chegaram a ameaçar a Copa das Confederações e, por isso, causar ainda mais temor pela realização da Copa do Mundo no país.

Subestimamos o poder de uma Copa do Mundo.

Embora todos aqueles problemas não desaparecessem com o pontapé do exoesqueleto, quando a bola rolou após o apito inicial de São Nishimura a grande maioria compreendeu realmente o que era sediar uma Copa do Mundo. Se ela não era perfeita como todos gostaríamos que fosse, a culpa não era dela, mas sim de seus pais, FIFA e Governo, sempre discutindo sobre de quem seria a culpa por uma criança tão indesejada, a ponto de ameaçarem até o divórcio algumas vezes.

No tapete verde, dificilmente outra Copa proporcionou partidas tão emocionantes, cheias de gols e surpresas. Parecia às vezes um episodio de Game of Thrones, já que tivemos personagens importantes morrendo precocemente, como Espanha e Itália. Sem falar no grande protagonista, o Brasil, o anfitrião massacrado de maneira histórica pelo gigante germânico (quem conhece a história sabe exatamente que personagem ele seria). O que dizer ainda de Costa Rica campeã do “grupo da morte” e eliminada nas quartas-de-final invicta?

Pelas ruas, o que se viu foi uma festa interminável dos estrangeiros que aqui pousaram, embalados pela embriaguez causada pelo calor do povo brasileiro (ok, algumas garrafas de cerveja também). O mundo abraçou o Brasil e sua Copa, assim como ficamos felizes até mesmo em ver os argentinos zoarem com a nossa cara. Todos chegaram e partiram em voos com quase nenhum atraso, os transportes públicos atenderam bem (tivemos feriado em dias de jogos, é verdade) e a segurança, motivo de tanta preocupação, não foi destaque em jornais nem daqui nem de Bagdá.

Perdão, dona Dilma, a senhora tinha razão, essa foi a “Copa das Copas” sim. O mundo reconhece. Nem sabemos quem será o campeão dentro de campo, mas fora dele, o país saiu vencedor, sem dúvida.

Daqui a quatro anos, a Rússia receberá a Copa do Mundo. É com enorme satisfação e saudade que a entregamos a vocês. Façam uma bela festa, acolham a todos com prazer e celebrem junto. O futebol é só um detalhe, pena que só compreendemos isto durante o Mundial. Mas mesmo assim, valeu muito a pena.

Até 2018, Rússia. Com amor, Brasil.