Brasil

A Tela no Texto – Que Horas Ela Volta?

Seja como for, uma obra de arte sempre tem como objetivo transmitir sensações a quem interage com ela. O Cinema, ou a Sétima Arte, nos apresenta muitas vezes obras nas quais um dos objetivos é causar incômodo ao espectador, seja através de excessos visuais (como A Paixão de Cristo de Mel Gibson), de suspense (o final de O Silêncio dos Inocentes), ou até mesmo através de humor (a primeira vez de Jim em American Pie). Há várias formas de fazê-lo e uma delas é utilizada com brilhantismo por esta obra nacional de Anna Muylaert: através de uma crítica social.

Sim, a desigualdade social no Brasil é um problema que todos conhecemos e com o qual convivemos, diariamente. Entretanto, não há melhor expressão que defina esse problema como o “elefante na sala de estar”. O “elefante” está ali, incomoda, mas o que todos fazem é ignorá-lo na ilusória esperança de que ele desapareça, ou seja, de que o problema se resolva por si só.

Aqui o elefante é representado pela relação servil entre uma empregada doméstica, Val, e seus patrões, Bárbara e Zé Carlos, além do filho do casal, Fabinho. A dinâmica dessa relação já fica exposta de maneira muito inteligente logo no início: a primeira vez que vemos os personagens do casal é pela fresta da porta da cozinha entreaberta e suas primeiras falas são ordens a Val. Já Fabinho, que foi praticamente criado por ela, uma vez que a mãe sempre foi ausente (“Que horas ela volta?”), desenvolveu um laço maternal, compartilhando coisas do seu dia-a-dia e suas angústias e por isso é apresentado ainda criança, na época em que Val deixou o Pernambuco para ganhar a vida em São Paulo.

O conflito surge quando Jéssica, filha de Val, decide ir a São Paulo para prestar vestibular para Arquitetura. A princípio sendo tratada de maneira amigável pela família com quem a mãe mora (chegando, inclusive, a ser servida por ela), esta relação muda quando Jéssica passa a confrontar o tratamento dispensado a Val. Todavia, suas críticas são muito mais direcionadas ao comportamento passivo da mãe, que aceita seu papel com uma humildade lamentável, a ponto de dizer que “nasceu sabendo” como deve se portar diante das humilhações sofridas, como se fosse uma vítima do destino por ter que se submeter a este tipo de trabalho.

E é de maneira extremamente autêntica que Regina Casé encarna esta figura tão adorável. Sua atuação não encontra exageros e é impressionante ver como ela consegue manter a doçura e a simplicidade vivas em seus olhos e gestos mesmo em situações de desconforto ou angústia. Como se não bastasse Regina ainda protagoniza uma das melhores cenas do Cinema em 2015, envolvendo a piscina da casa, marcando um momento de evolução de Val e arrancando lágrimas até de espectadores menos sensíveis.

Aliás, essa piscina é uma dos vários simbolismos que a direção utiliza, sempre de maneira pouco sutil, vale lembrar (a ideia aqui é causar incômodo), para representar o contraste social presente no filme. Há ainda um plano frequente envolvendo uma escada (ascensão social), as camisetas de times norte-americanos ou de cidades estrangeiras que Val usa (claramente descartadas pela família) e um jogo de xícaras preto e branco que reforça esta ideia de contraste.

Contudo, Que Horas Ela Volta? também é um interessante estudo de personagens, e outra ideia abordada no filme são as relações de Jéssica e Fabinho com suas mães. Ambos possuem uma imensa dificuldade em manifestar afeto, uma vez que foram criados por outras pessoas. Aqui a obra traça um ótimo paralelo, pois, uma vez que Val tenta convencer Jéssica de que não teve outra opção, seu arrependimento é evidente ao tomar certa atitude mais tarde. Ora, se Val, mesmo em condições desfavoráveis, em busca de melhores condições de vida “abandona” a filha mas é capaz de reconhecer isso, Bárbara prefere transferir a culpa ao filho, chegando a perguntar várias vezes se o filho está drogado como forma de responsabilizar seu comportamento.

Se Bárbara e Val representam papéis muito mais presentes em uma sociedade de décadas atrás, os personagens de Jéssica e Fabinho podem ser vistos como a forma da juventude atual encarar o problema da desigualdade. Fabinho, mesmo demonstrando carinho por Val nunca se coloca na posição de defendê-la, sempre se mostrando mimado e infantil. Ele seria então a parcela que prefere ignorar o “elefante”, enquanto Jéssica, segura de si e inteligente, representaria aqueles que já compreendem a necessidade de condições mais igualitárias e do fim de uma hierarquia baseada em status social.

Naturalmente, nosso país ainda está muito longe disso. Porém, hoje a filha da empregada doméstica pode se sentar ao lado do filho da patroa numa sala de aula de uma universidade (se ele conseguir). Val diria que as coisas estão diferentes, mas diria isso com um sorriso que só quem tem amor e otimismo de sobra pode dar.

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