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Por que Rogue One é melhor que O Despertar da Força

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS DE “ROGUE ONE” E “O DESPERTAR DA FORÇA” (É BOM AVISAR ANTES QUE HAJA ALGUM MIMIMI)

Imagine que você fosse um personagem do universo de Star Wars. Um dia desses qualquer, algum outro personagem começa a contar uma história dizendo “Ei, já te contei como a Aliança Rebelde conseguiu descobrir um meio de destruir a Estrela da Morte? Então, havia um engenheiro chamado Galen Erso…”. Pois é exatamente isso que é Rogue One – Uma História Star Wars. É uma história dentro de outra. E é por isso que funciona perfeitamente bem. Melhor dizendo, não é só por isso, mas o fato de levar o espectador a este nível de compreensão é um belo ponto de partida. Toda a atmosfera de Star Wars está ali – e apesar do enredo estar diretamente ligado aos acontecimentos principais da saga, o espectador se conecta mesmo com este universo é por meio das várias referências, características dos personagens e dos detalhes que compõem a obra.

Ora, e O Despertar da Força não tem nada disso? É claro que tem, é um bom filme, mas ele é mais como a história sendo vivida. Sabe quando estamos contando para alguém sobre algo e aquilo parece muito mais importante/divertido/triste do que realmente foi? Eu diria que é isso que faz a diferença neste caso. Bem, para explicar melhor meu ponto de vista, podemos enumerar algumas razões:

1. O Despertar da Força é a primeira parte de um novo arco

Este filme funciona como uma introdução ao novo arco da saga. Ainda não sabemos as reais intenções de alguns personagens e nem como outros irão se comportar ao longo dos próximos filmes. É como se estivéssemos lendo um livro e, ao chegarmos a um terço de suas páginas, alguém perguntasse “este livro é bom?”. Já Rogue One é uma história acabada, o que contribui para a sensação de satisfação ao sairmos do cinema. Conhecemos os personagens e suas motivações, vimos qual foi o desfecho daquilo tudo. E sim, o final sempre importa (vide Lost, por exemplo).

2. Os personagens de Rogue One são mais interessantes

São personagens mais cativantes e com os quais nos identificamos mais. Como não se comover com o monge cego que tem a Força quase como uma religião? Como não sentir a dor que traz consigo o capitão Cassian? E o androide K-2SO? O melhor robô de toda a franquia! O seu jeitão “sincericida” proporciona excelentes piadas ao longo do filme.

Felicity Jones, como a protagonista Jyn, vai muito bem ao representar a força e a personalidade de sua personagem. O elenco, aliás, se sobressai, com destaque para o ótimo Forest Withaker, um extremista rebelde. O elenco de O Despertar da Força também é ótimo, o que seria um “empate técnico” neste quesito.

3. Os extremistas rebeldes liderados por Saw

Achei essa abordagem muito interessante. As ações do rebelde Saw Gerrera no combate ao império se assimilam a ações terroristas, coagindo prisioneiros e realizando ataques em plena cidade. Ou seja, não é porque estão do lado certo da história que suas atitudes não devem ser questionadas. O radicalismo por si só corrompe a causa.

Outros episódios da saga trazem alguns questionamentos morais e até políticos, algo que não é visto no episódio VII.

4. A aterrorizante Estrela da Morte

Não seria exagero dizer que o grande vilão de Rogue One é a Estrela da Morte. Em O Despertar da Força a Estrela da Morte 2.0 destrói vários planetas de uma só vez e ainda assim não nos impressiona; neste filme a direção tomou uma excelente decisão ao colocar em primeiro plano o efeito devastador da destruição provocado pelo raio mortal, assim como o enfoque para a arma em si, dando a ela uma aparência ainda assustadora. Sua figura sombria vista pelos habitantes nos céus da Galáxia emana o olhar do próprio Darth Vader. E por falar nele…

5. Darth Vader

Aquela cena é melhor que o episódio I inteiro.

Se o nível de qualidade for mantido, o filme solo de Han Solo (eu não poderia perder a chance de escrever isso) tem tudo pra ser mais uma bela “história Star Wars”. Pois Rogue One mostrou que este universo é tão grandioso quanto a Força existente nele.

E você, concorda comigo? Deixe sua opinião nos comentários!

P.S.: Enquanto escrevia este texto, soube da notícia da morte de Carrie Fisher. A mais corajosa das princesas só ganhou vida graças ao seu carisma e personalidade. Que a Força esteja contigo, Carrie.

A Tela no Texto – Que Horas Ela Volta?

Seja como for, uma obra de arte sempre tem como objetivo transmitir sensações a quem interage com ela. O Cinema, ou a Sétima Arte, nos apresenta muitas vezes obras nas quais um dos objetivos é causar incômodo ao espectador, seja através de excessos visuais (como A Paixão de Cristo de Mel Gibson), de suspense (o final de O Silêncio dos Inocentes), ou até mesmo através de humor (a primeira vez de Jim em American Pie). Há várias formas de fazê-lo e uma delas é utilizada com brilhantismo por esta obra nacional de Anna Muylaert: através de uma crítica social.

Sim, a desigualdade social no Brasil é um problema que todos conhecemos e com o qual convivemos, diariamente. Entretanto, não há melhor expressão que defina esse problema como o “elefante na sala de estar”. O “elefante” está ali, incomoda, mas o que todos fazem é ignorá-lo na ilusória esperança de que ele desapareça, ou seja, de que o problema se resolva por si só.

Aqui o elefante é representado pela relação servil entre uma empregada doméstica, Val, e seus patrões, Bárbara e Zé Carlos, além do filho do casal, Fabinho. A dinâmica dessa relação já fica exposta de maneira muito inteligente logo no início: a primeira vez que vemos os personagens do casal é pela fresta da porta da cozinha entreaberta e suas primeiras falas são ordens a Val. Já Fabinho, que foi praticamente criado por ela, uma vez que a mãe sempre foi ausente (“Que horas ela volta?”), desenvolveu um laço maternal, compartilhando coisas do seu dia-a-dia e suas angústias e por isso é apresentado ainda criança, na época em que Val deixou o Pernambuco para ganhar a vida em São Paulo.

O conflito surge quando Jéssica, filha de Val, decide ir a São Paulo para prestar vestibular para Arquitetura. A princípio sendo tratada de maneira amigável pela família com quem a mãe mora (chegando, inclusive, a ser servida por ela), esta relação muda quando Jéssica passa a confrontar o tratamento dispensado a Val. Todavia, suas críticas são muito mais direcionadas ao comportamento passivo da mãe, que aceita seu papel com uma humildade lamentável, a ponto de dizer que “nasceu sabendo” como deve se portar diante das humilhações sofridas, como se fosse uma vítima do destino por ter que se submeter a este tipo de trabalho.

E é de maneira extremamente autêntica que Regina Casé encarna esta figura tão adorável. Sua atuação não encontra exageros e é impressionante ver como ela consegue manter a doçura e a simplicidade vivas em seus olhos e gestos mesmo em situações de desconforto ou angústia. Como se não bastasse Regina ainda protagoniza uma das melhores cenas do Cinema em 2015, envolvendo a piscina da casa, marcando um momento de evolução de Val e arrancando lágrimas até de espectadores menos sensíveis.

Aliás, essa piscina é uma dos vários simbolismos que a direção utiliza, sempre de maneira pouco sutil, vale lembrar (a ideia aqui é causar incômodo), para representar o contraste social presente no filme. Há ainda um plano frequente envolvendo uma escada (ascensão social), as camisetas de times norte-americanos ou de cidades estrangeiras que Val usa (claramente descartadas pela família) e um jogo de xícaras preto e branco que reforça esta ideia de contraste.

Contudo, Que Horas Ela Volta? também é um interessante estudo de personagens, e outra ideia abordada no filme são as relações de Jéssica e Fabinho com suas mães. Ambos possuem uma imensa dificuldade em manifestar afeto, uma vez que foram criados por outras pessoas. Aqui a obra traça um ótimo paralelo, pois, uma vez que Val tenta convencer Jéssica de que não teve outra opção, seu arrependimento é evidente ao tomar certa atitude mais tarde. Ora, se Val, mesmo em condições desfavoráveis, em busca de melhores condições de vida “abandona” a filha mas é capaz de reconhecer isso, Bárbara prefere transferir a culpa ao filho, chegando a perguntar várias vezes se o filho está drogado como forma de responsabilizar seu comportamento.

Se Bárbara e Val representam papéis muito mais presentes em uma sociedade de décadas atrás, os personagens de Jéssica e Fabinho podem ser vistos como a forma da juventude atual encarar o problema da desigualdade. Fabinho, mesmo demonstrando carinho por Val nunca se coloca na posição de defendê-la, sempre se mostrando mimado e infantil. Ele seria então a parcela que prefere ignorar o “elefante”, enquanto Jéssica, segura de si e inteligente, representaria aqueles que já compreendem a necessidade de condições mais igualitárias e do fim de uma hierarquia baseada em status social.

Naturalmente, nosso país ainda está muito longe disso. Porém, hoje a filha da empregada doméstica pode se sentar ao lado do filho da patroa numa sala de aula de uma universidade (se ele conseguir). Val diria que as coisas estão diferentes, mas diria isso com um sorriso que só quem tem amor e otimismo de sobra pode dar.

A Tela no Texto – Janela Indiscreta, de Sir Alfred Hitchcock

Volto aos textos no blog depois de quase um ano (!) para falar de algo que é uma das minhas maiores paixões na vida: o cinema. Mais especificamente, sobre esta fascinante obra do Mestre do Suspense, Sir Alfred Hitchcock.

O diretor com uma claquete durante as filmagens de “Psicose”

Para quem nunca viu nada desse camarada, certamente já deve ter visto pelo menos alguma referência à icônica cena do chuveiro do mesmo Psicose:

Lembrou do Super Cine? Pois é, daria pra fazer uma maratona de Super Cine só com seus filmes. Com uma observação, óbvia: estes são muito melhores do que a grande maioria dos suspenses meia boca que passaram por lá.

Deixando nossos sábados à noite de tédio de lado, venho falar aqui deste excelente Janela Indiscreta, de 1954 (existe uma versão de 1998 com o saudoso Christopher Reeve, fuja). O renomado fotógrafo L.B. Jefferies, depois de sofrer um acidente que o deixa de molho por 7 semanas, passa os dias na janela de seu apartamento observando a vizinhança. Este exercício de observação dos hábitos alheios se torna intenso o bastante a ponto de fazê-lo criar apelidos para cada um, como a “Srta. Busto”, a “Srta. Solitária”, o “Pianista”, etc.

Justamente por conhecer seus hábitos tão a fundo, Jeff é capaz de criar uma teoria que envolve um vizinho em específico, apenas por observar atos que geralmente não fazem parte do seu cotidiano. Sem poder sair de seu apartamento, ele acaba fomentando uma investigação da qual fazem parte um amigo detetive, sua enfermeira e a futura esposa que ele reluta em aceitar: Lisa, interpretada por Grace Kelly, uma princesa – literalmente.

O plano que abre o filme é preciso e imprescindível ao espectador por mostrar todo o ambiente que cerca a janela do apartamento de Jeff. Dessa forma, o espectador fica situado como o personagem.

O plano inicial do filme representado por esta imagem panorâmica

O plano inicial do filme representado por esta imagem panorâmica

Sir Hitchcock (como deve ser legal ser um Sir) utiliza aqui um recurso sensacional: praticamente toda a ação do filme é mostrada apenas da visão da janela de Jeff, colocando o espectador lá, na cadeira de rodas, despertando nele as mesmas curiosidades, dúvidas ou angústias do personagem. Este recurso tem duas funções principais: cria todo o suspense da trama, através da falta de conhecimento dos fatos e da impossibilidade de ação, como também serve para ilustrar tudo o que discutirei nos dois próximos parágrafos.

Pois é através do desenvolvimento da narrativa a partir deste cenário que Sir Hitchcock aproveita para levantar alguns questionamentos morais e sobre as relações humanas, valendo-se de bons diálogos, mas também de algumas cenas bem tocantes. Afinal de contas, é na intimidade de nossos lares que podemos ser quem somos, sem se preocupar com as aparências, julgamentos ou pudores.

Ora, quem de nós, também conhecendo alguns hábitos de nossos vizinhos, nunca fizemos comentários do tipo “Fulano chegando em casa a essa hora” ou “Ciclano não dá festas há algum tempo, deve tá namorando”? Isso é inerente ao ser humano, a curiosidade pela vida alheia, que garante sucessos de mídia que vão desde o Big Brother até àquele que é a grande vizinhança do mundo, o Facebook. Neste filme, o personagem de Jeff é a representação daquelas senhoras sentadas à varanda em cidadezinhas do interior (alô, Ituiutaba!) fazendo fofoca, ou, por que não, é a representação, em maior ou menor grau, de nós mesmos.

Mas é no desenvolvimento do mistério central que reside toda a dinâmica do filme. Em alguns momentos temos vontade de “saltar pra dentro da tela” e agir, tamanha a angústia! Mas não, Sir Hitchcock já nos colocou ali “sendo” Jeff, e uma perna engessada não nos permite fazer muita coisa. Essa tensão só aumenta à medida que vamos nos aproximando do clímax e confesso que, pela maneira como os fatos foram ocorrendo, imaginei que o final seria outro, mais trágico. Entretanto, admito que ele não se encaixaria tão bem, pela temática utilizada (inclusive não farei nenhum comentário para não dar spoiler, mas gostaria de discutir com quem já viu ou depois que assistir o filme).

No mais, Janela Indiscreta pode ser definido como uma autêntica obra de suspense que ainda suscita uma boa discussão sobre o cotidiano e o comportamento humano, sobre como o fato de seu vizinho sair às duas da manhã debaixo de chuva pode não significar nada – ou algo terrível.