contos

Mudança

Entre as piores coisas da vida, como chutar o canto do sofá com o mindinho do pé, perder o ônibus, perceber que acabou o papel e, enfim, muitas outras, podemos considerar fazer mudança em dia de chuva parte desse rol, certamente. Alberto diria que está certo, com um aceno de cabeça e uma coçada no queixo, como sempre faz quando concorda com algo. Lá estava ele, com as roupas molhadas prestes a terminar a sua, olhando o céu despejar sua ira em forma de água, naquela tarde de quinta. Cada trago no cigarro era uma descarga de fumaça em seus pulmões e milhões de outras elétricas em seu cérebro, a fim de acompanhar a velocidade com que o pensamento ia e vinha.

Parado em frente ao prédio onde vivera por quase seis anos, esperava que a tormenta parasse, ou pelo menos se tornasse chuva leve, para que pudesse levar as últimas caixas para o carro, que teve que ficar estacionado um pouco longe por falta de vaga. Essa talvez fosse a grande desvantagem daquele prédio. Gostava dali, era uma boa localização, mas não tinha garagem. Agora, sozinho, já não fazia sentido continuar ali e junto com outras coisas, se faziam as razões pelas quais estava se mudando. Mas essas outras coisas eram basicamente lembranças e estas os corretores de imóveis não incluiriam no aluguel, então tudo bem.

Não demorou muito até que a chuva diminuísse e Alberto subisse ao apartamento para finalmente recolher as caixas. Subiu os degraus depressa, numa corrida contra o tempo, ou melhor, contra a chuva, mas quando chegou à porta se conteve. Ficou por alguns segundos contemplando-a. Na pele aquela estranha sensação de quando estamos nos despedindo de alguém. Não, não poderia simplesmente deixar aquele apartamento com tanta pressa, era preciso dizer adeus de maneira digna.

Alberto entrou, deu alguns passos, enfiou as mãos nos bolsos e ficou ali, imóvel, olhando, escutando as vozes roucas das paredes sujas e desgastadas pelo tempo. “Foi culpa sua”, repetiam. Não era muito lisonjeiro da parte delas, mas depois de tudo que presenciaram ali nos últimos anos, era só o que sabiam dizer. Ele então parou de prestar atenção nelas por um momento e fixou os olhos na janela, do mesmo jeito em que estivera uma vez há poucos meses, quando percebeu que deixaria aquele apartamento em breve. Aquela janela foi mais complacente e apenas ficou em silêncio, fitando-o.

Seguiu para os outros cômodos como se quisesse dizer adeus a cada um. A cada rodapé, a cada grão de poeira no chão, a cada rachadura encontrada, uma porção de memórias, segredos, olhares, carinhos, risadas, palavrões, rancores e dores surgiam repentina e implacavelmente, imitando os relâmpagos lá fora. Aliás, como haviam rachaduras! Com todos os móveis, com as pessoas, com a rotina, ele nunca havia notado que eram tantas (e tão grandes). Pois eram, ele nada fez para impedir que progredissem, elas tomaram conta de algumas paredes e do teto, agora era tarde.

Quando foi entrar no antigo quarto, perdeu a coragem. Ali ainda estavam guardados provavelmente os melhores e os piores momentos dos últimos anos, as poucas vezes em que disse sim, as tantas vezes em que disse não. Sim ao prazer, à entrega, ao presente; não ao perdão, ao respeito, ao futuro. Decidiu então não entrar e fechar a porta.

Enquanto se encaminhava para a porta de entrada, ouvindo o eco produzido pelo barulho dos próprios passos, teve medo. Aquele som era triste e desolador. A solidão abraçou-o mais forte que nunca. Alberto, que sempre foi osso duro, pela primeira vez desde a separação, chorou. Escorou-se na parede, de frente para a porta de entrada e desabou, sentando-se no chão. As paredes agora choravam junto.

A porta tinha ficado aberta e algum momento depois dona Denise, senhora que morava no 303, estava saindo quando notou o penoso fato. Aproximou-se da porta.

– Tá tudo bem, meu filho? Tá indo hoje?

– Tudo bem, dona Denise, estou pegando as últimas caixas – disse Alberto, enquanto se levantava e limpava as lágrimas do rosto.

– Que bom! Mudança é difícil mas é preciso.

– Muito difícil! E com essa chuva toda ainda…

Dona Denise então se aproximou dele e disse com a voz suave e terna de quem possui a sabedoria de uma biblioteca de Alexandria:

– Não estou falando do apartamento, meu filho.

E saiu, fazendo um aceno com a mão esquerda.

Alberto engoliu o resto do choro, aquelas palavras, fez um aceno de cabeça e coçou o queixo. Segundos depois, pegou as coisas, virou-se e com um suspiro, soltou um “adeus” quase audível. Logo em seguida, saiu, sem olhar para trás.

Anna

Um dia de solidão e um passeio num parque da Antuérpia e decido contar um pouco da história de Anna. Mas talvez nem seja sua história. Talvez nem seja Anna.

Era outono, mas um atrevido dia de outono com muito sol e um imenso céu completamente azul, o que não era comum naquela época. Por essa razão o parque estava cheio, não só de crianças e sorrisos mas também de solidão e de pensamentos absortos.

Como os de Anna. Ela estava ali sentada observando um grupo de pequenas meninas brincando, e seu olhar poderia estar nelas mas elas não estavam em sua mente. Ela estava longe, tanto no tempo como no espaço, e o ser humano ainda não criou uma unidade de medida para isto.

Fazia uma semana desde o ocorrido. Entretanto talvez fosse esta a primeira vez em que estivesse realmente pensando sobre o fato. Não que não o tenha feito nos últimos dias, claro, mas como estava sempre à base de entorpecentes (trabalho, academia, estudo, tv e outras drogas legalizadas) as lembranças vinham mais como flashes, como bad trips, como punhaladas nas costas.

Tentou se distrair lendo um livro que comprara algumas semanas antes, mas não conseguiu ler mais do que dez, doze, quatro páginas. Fechou-o e abriu uma fenda no espaço-tempo para aquele dia. E lá ficou por horas, dias, mas não mais do que dois minutos na nossa contagem de tempo. Como dito, não se mede o tempo nem o tamanho do pensamento.

Anna era jovem, bonita, belos cabelos loiros e a pele como a de alguém nascida na realeza. O sol se apaixonou por ela e fazia com que seu rosto brilhasse por todo o tempo em que estivera ali. Desse modo, era compreensível que, algum homem ou mulher que por ali a visse pudesse sentir o mesmo que o sol.

Anna também era bela de alma, e sua energia poderia abastecer uma pequena cidade do interior. Isso também chamava a atenção de muitos. De um homem, em especial, cujo nome pode-se omitir pois não está à altura. Esse homem contou a ela uma história, mas o final era terrível. Como o final de Lost, alguns diriam. Anna também havia comprado esse livro, mas ele não ficou bem em sua estante.

Com a urgência de uma indústria, Anna subitamente retornou ao mundo material e se levantou de pronto. Verificou o celular, “Chris curtiu uma foto sua”, “Último dia da promoção de Halloween, não perca!”, bateria em 59%, só. Guardou-o, subiu em sua bicicleta e lembrou que tinha que comprar a comida do gato, mas hoje é domingo, teria que ir até o supermercado, que é mais longe, “acho que a comida ainda dá pra hoje”, foi direto pra casa, deitou-se na cama e chorou.

Segunda-feira também fez sol.