divagações

O dom de decepcionar

Desde pequeno eu fui levado a crer que deveria ser o melhor em tudo. Meu ego carregava consigo um revólver calibre 22 carregado de arrogância e insegurança, apontado o tempo todo para minha testa, logo aos cinco anos de idade. Contribuía para isso o fato de que eu aprendi a ler e escrever sozinho, logo, achava que era superior às outras crianças.

Que fique claro que meus pais não encorajavam essa atitude, de jeito nenhum. Acho que era difícil que percebessem, até. Aliás só não devo ter sido uma criança mais chata porque eles me transmitiam valores muito importantes. Mas uma personalidade forte é uma barra de aço e é preciso um calor humano próximo do sol para derreter.

É óbvio que eu não era o melhor em tudo. Um craque na escola, com a bola… nem tanto. Ruim em esportes, em geral. Isso me frustrava. Bom de briga? Tanto quanto o Chapolin. Isso me chateava também. Ah, mas você devia ser um cara boa praça. Bem…

Eu era tímido e inseguro. Minha personalidade veio com o botão da autoconfiança quebrado. E resolvia compensar disparando o tal calibre 22 pra todos os lados. Eu sempre tive bons amigos e agradava a uns e outros. Mas bem lá no fundo, suspeito que é porque eu queria ser bom até nisso.

Ora, normal, toda criança/adolescente sente necessidade de afirmação. De se inserir no grupo, de fazer parte da rodinha, de ser convidado para as festas, enfim, ser descolado (ainda usam essa gíria hoje em dia?). No meu caso, isso não era genuíno porque eu na verdade queria mesmo era ser quase perfeito (eu era ruim de bola, né).

Enfim, chego à vida adulta e com ela, problemas de verdade surgem no caminho, a aventura prestes a começar. Agora uma vida social é necessária, e como vocês podem ver pela minha fase de treinamento, os traumas das relações são fulminantes como golpes de um mestre de kung-fu. E isso me frustra, muito.

Mas dessa vez a frustração é genuína. Porque a maturidade é uma companheira muito didática. Ela mostra que um carinho, um gesto de amizade ou um sorriso sincero dão tanto prazer quanto um 10 em uma prova de matemática. E passo a dar cada vez mais valor a isso. Pra piorar, esta quimera de emoções e estranhezas, que possui RG e CPF, desenvolveu ainda uma habilidade especial, a mãe de todas as frustrações psicológicas: o dom de magoar as pessoas que gosto.

Ah, você tá exagerando. Não, não estou, porque eu já ouvi isso de alguém. Que tinha tido sim, toda a razão ao dizê-lo. E poucas vezes na vida eu havia sido tão estúpido. E com essa declaração eu quebrei meu espelho da verdade e precisei arranjar outro, adequado ao meu novo mundo. Era preciso melhorar, por uma questão de sobrevivência.

Bem, de lá pra cá eu posso dizer que evoluí bastante, mas essa habilidade é como um vício e volta e meia vêm as recaídas. E puta merda, dói demais. É como ser atingido por um raio no peito. Por 72 horas seguidas. É muito pior que ser magoado pelos outros, porque com outra pessoa você vai lá, desabafa, discute, resolve. Comigo mesmo eu até faço isso, mas não tem o mesmo efeito. Meus ouvidos já sabem o que vou dizer. As palavras perdem impacto.

E este texto seria mais uma estratégia nesta batalha contra eu mesmo, pois percebi que a escrita é um ótimo antídoto contra minhas toxinas emocionais; ao me expor assim deixo a cara pra apanhar de quem já feri um dia, espero deixar o saldo zerado. Assim também deixo evidente que nada foi proposital, calculado, já sou errado de nascença. Aqui peço perdão à minha família, ao meu ex-sócio, minha ex-namorada, alguns amigos, pessoas com que trabalhei e mais recentemente, por palavras equivocadas ditas em um sábado à noite. Pois é, enquanto escrevo estou há menos de 24 horas “limpo”.

Há ainda um outro propósito, mostrar que nem tudo está perdido. Talvez muita gente se identifique com a minha história. Para estas pessoas eu digo: não se cobre tanto. Perdoe-se, ria de si mesmo. Saiba que somos todos seres imperfeitos e busque as alternativas mais eficazes para superar e suprimir seus erros. Eu, por enquanto, vou encontrando formas de construir meu para-raios, já que nem todos os dias são de sol.

 

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Catavento

Na escuridão o pensamento ecoa tanto que se torna ensurdecedor, pensou o Catavento.

Desde que aquele rigoroso inverno começou, um bom tempo atrás, Catavento não mais havia visto as cores. Muito menos o vento. Trancado naquela gaveta, enquanto o tempo se fazia de estátua, não podia mover-se.

Pensava nos outros. Estariam na mesma situação que ele? Se não, por que ele? O que ele fez de errado? Deveria ser simples, o vento sopra e o Catavento gira, certo?

Quem te sopra, Catavento?

Se lembra bem da última vez. Aquele vento era manso, constante, carinhoso. Soprava de todos os lados e amava a todos, de modo que todos o apreciavam também.

Mas houve dias em que choveu, muito, e nesses dias o vento ficava mudo.

E o silêncio fez com que o Catavento desejasse outros ventos.

E perdeu-se.

Perdeu-se na inocência que excita, na certeza que mente, na estrada que leva ao palácio dos prazeres eternos.

Onde nunca se chega.

Até que um dia, à beira de um lago, enquanto a brisa tentava lhe adoçar a razão, Catavento viu seu reflexo na água.

Onde estariam suas cores, seus contornos, seus amores, seus adornos?

Onde estariam seus sonhos?

Quem te sopra, Catavento?

No escuro, o Catavento escuta um som diferente.

Parece que tem algo batendo, é o som de uma janela batendo, é…

Um vento tentando abrir a janela!

Cada batida é como um chamado, seu nome ouvido no ranger das fibras, vem, Catavento, vem!

Não sabia como interpretar aquilo. Quem era? Por que agora?

Olhou pro tempo, que tentava disfarçar um sorriso. Catavento entendeu que não havia o que entender.

E Catavento foi.

E nas rotações que se seguiram, seus tons acinzentados e pálidos deram lugar a novas paletas de cores. Muitos ventos sopraram, uns generosos como colo de mãe, outros revoltos como ondas do mar. Mas todos eles tinham um propósito, uma missão, e Catavento compreendia.

E assim Catavento seguia girando, passando o passado para trás, quando foi tomado de súbito por um vendaval. Um vendaval não, um tornado. Um tornado não, um furacão.

Catavento não sabia como agir, o que pensar, como sentir.

Arrastado por aquela força devastadora, apenas mergulhou nas trevas e se deixou levar.

Sua consciência rodopiava em torno de uma espiral de medo, excitação, angústia, sonho e também realidade. Fora tomado por uma tempestade de areia do tempo, onde cada volta trazia uma cena de sua viagem existencial.

Seria este seu destino final?

O furacão passou.

Onde estou? Eu me sinto… nas nuvens! – pensou.

Catavento despertou.

Então viu.

Que ali ele podia ter o mundo.

Que dali ele podia ver a vida.

Mas e agora?

Quem te sopra, Catavento?

Ora, quem me sopra não é o vento.

Mas o tempo.