A Tela no Texto – Blade Runner O Caçador de Androides

(Para quem ainda não viu: Blade Runner possui vários cortes – versões – sendo que a mais indicada seria a “Final Cut”, pois é aquela em que o diretor Ridley Scott tem total supervisão).

Faça o seguinte experimento: escolha algumas fotos antigas, suas favoritas. Olhe atentamente cada uma. Procure lembrar da experiência relacionada à fotografia. Observe as sensações e emoções que afloram nesse momento. O que estas emoções dizem sobre você? Como esta memória afetou sua personalidade? O que ela trouxe pra sua vida?

Esta reflexão de caráter existencialista é que move a trama de Blade Runner – uma ficção científica neo-noir de 1982. A história se passa na Los Angeles de 2019, onde o ex-policial Deckard, vivido por Harrison Ford, tem a missão de caçar quatro Replicantes fugitivos de uma colônia espacial. Os Replicantes são clones criados para colonizar outros planetas e foram impedidos de viver na Terra legalmente.

Três elementos são fundamentais para situar o espectador neste universo: o design de produção, a fotografia e a cadência. Logo no plano inicial, vê-se a cidade iluminada vista de longe, carros voadores circulando entre seus arranha-céus e estruturas piramidais monumentais; a fotografia traz os ambientes quase sempre escuros e esfumaçados contrastados por luzes intermitentes que remetem a telas ou máquinas. Tudo explorado por meio de planos longos, contribuindo para que o ritmo da narrativa seja monótono e sufocante – exatamente como os exóticos habitantes dessa Los Angeles se sentem.

Como complemento a estas características, a trilha sonora de Vangelis é magistral, sempre ajustando o tom da produção com seus traços de música oriental, numa roupagem que mistura o clássico e o eletrônico.

Toda esta atmosfera determina a relação entre os personagens, quase sempre melancólicos e praticamente inexpressivos, além do alcoolismo abordado constantemente. A originalidade do roteiro aqui reside em apresentar os Replicantes como um contraponto a isso, já que são figuras que parecem apreciar cada segundo de suas vidas justamente por serem cientes de sua existência fugaz. Dessa forma, o ator Rutger Hauer, que vive o Replicante Roy, desenvolve o conceito com extrema intensidade, fazendo de cada aparição em tela um capítulo à parte. Suas ações são  frequentemente antecipadas por uma tensão crescente, engrandecendo não somente o personagem, mas também as próprias ações em si.

É notável como o longa consegue amarrar todos os seus elementos visuais e narrativos, de modo que o espectador consiga compreender todas as motivações dos personagens e o rumo da trama. Até mesmo Deckard, cujas ambições são desconhecidas (ou mesmo nulas) a princípio, tem seu arco dramático desenvolvido de maneira fluida e, por que não, simbólica. É fundamental que Blade Runner trate o protagonista deste modo, para que o espectador, assim como ele, possa imergir numa experiência totalmente nova, fazendo com que estes acontecimentos o definam. Entretanto, de forma brilhante, o roteiro não define o personagem (ou a experiência) com respostas, mas com novos questionamentos.

Ora, se nossas memórias nos definem, cada nova experiência traz consigo novas memórias; sendo assim, o que somos nós, afinal? A resposta, provavelmente só virá quando nossa última memória for criada – ou quando desaparecer.

Mas, por enquanto, fiquemos apenas com a certeza de que Blade Runner é como uma bela foto: cada olhar, cada visita trará novas emoções e, melhor ainda, novas perguntas.

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Sobre a Alemanha nazista e a ascensão do autoritarismo hoje – uma série de tweets por Sandra Schwab

Este texto é a tradução de uma thread no Twitter publicada por Sandra Schwab (@ScribblingSandy). O meu perfil é o @marmar_abc.

Procurei ser o mais fiel possível à linguagem utilizada por ela; peço desculpas pelos erros pois não sou tradutor profissional, apenas alguém com boa vontade e um tempinho sobrando 🙂

Quando você cresce na Alemanha estudando no sistema escolar alemão, você estuda o período do Terceiro Reich várias vezes. Em História vemos pelo menos duas vezes; em Alemão nós falamos sobre isso quando lemos contos e poesia. Em Inglês nós lemos The Wave de Mortons Rue. Quando A Lista de Schindler foi lançado, nosso professor nos levou ao cinema para assisti-lo. Quando tínhamos 15 ou 16 anos, nosso professor de História nos apresentou o filme alemão antiguerra Die Brücke. Fizemos uma de nossas excursões de classe para o Museu Judaico de Frankfurt e outra para um antigo campo de concentração.

Na Alemanha você não se dá ao luxo de dizer a si mesmo (e a seus filhos) “isso não vai acontecer em nosso país”. Logo, nós não só conhecemos os horrores da Alemanha nazista, como também aprendemos sobre os mecanismos da sociedade dos anos 30. Aprendemos sobre como a democracia era vulnerável e como foi facilmente derrubada. Aprendemos que algo como o Holocausto não começa em campos de concentração, mas com um discurso voltado à desumanização de um grupo inteiro de pessoas.

Outro aspecto que abordamos é sobre como era a vida na Alemanha Nazista. Deixe-me dizer que é terrivelmente foda o quanto era fácil erguer e sustentar um sistema como aquele. Você era filiado ao partido errado? Você está preso. Você contou uma piada inapropriada? Você está preso. Você quer que seu filho trabalhe como aprendiz em uma grande fábrica, no caso o maior empregador na sua cidadezinha? Melhor que ele pertença à Juventude Hitlerista (esta é a razão pela qual meu avô se juntou à instituição). Ah, e sua filha? Ela é um membro da Liga das Moças Alemãs? Se não, por quê? E você, quer ser professor? Bem, melhor que seja filiado ao Partido Nazista.

No Stew Sunday (Eintopfsonntag), era esperado que alguém do Partido Nazista aparecesse em sua residência. Eles queriam ter certeza de que você realmente havia preparado um cozido e que havia doado o restante que seria gasto em uma refeição mais elaborada, como um esforço para fazer o seu país ser grande novamente (e se você não tivesse um cozido preparado, era bom que tivesse uma bela explicação pra isso).

Nota de tradução: Em 1933, Hitler determinou que um domingo por mês, de outubro a março, deveria ser reservado para o Eintopf (literalmente, “uma panela”), que se tratava de um cozido ou guisado onde se colocava tudo em uma panela só, economizando comida e, consequentemente, dinheiro; este dinheiro deveria ser doado à Nationalsozialistische Volkswohlfahrt (Organização Nacional-Socialista de Previdência Social Popular) para fins de caridade (pelo menos este era o discurso).

Quer ser um folclorista? Ouvi dizer que nossas grandes raízes Germânicas são tudo o que interessa agora. Melhor trabalhar com isso. Vá dar uma olhada em algumas runas. Quer trabalhar como autor? Bem, se você era um crítico dos membros de nosso partido antes de chegarmos ao poder, vamos queimar seus livros (naturalmente, você não poderá publicar nada novo).

Dirigia uma organização juvenil nos anos 20? Naturalmente será fundida às novas organizações nacionais juvenis. Mas ei, estas duas novas organizações nacionais (a Juventude Hitlerista – Hitlerjugend e a Liga das Moças Alemãs – Bund Deutscher Mädel) são incríveis. Quero dizer, sim, há um pouquinho de doutrinação política, mas você poderá fazer coisas emocionantes; fará excursões e nos feriados. Você está sendo feito se sentir parte de um grupo – e todos nós sabemos o quanto esta sensação é poderosa, certo?

Imagine viver em um país assim. Imagine viver em um país onde seus filhos estão sendo instruídos a dar informações sobre você e sobre os professores deles. Imagine viver em um país onde seus vizinhos podem te denunciar se você fizer piada sobre a liderança política do seu país. Imagine assistir seu vizinho, um membro proeminente do Partido Socialista Democrático, sendo levado pela polícia para um campo de concentração. Imagine assistir uma multidão furiosa destruindo a loja do seu vizinho judeu.

Você teria coragem suficiente para se manifestar numa situação como essa, sabendo que a multidão poderia se virar contra você? O que aconteceria à sua família? Ou você estaria nessa multidão? Pois fazer parte de um grupo faz você se sentir poderoso e importante. Ou você seria um espectador incentivando-os? Porque pelo menos quando eles atacassem outros, não atacariam você. Ou você estaria sentado em seu apartamento no fim da rua, com sua vida normal, que certamente não poderia piorar, e seria mais fácil não prestar atenção em todas as coisas ruins que estariam acontecendo com outras pessoas.

Veja, pela sua perspectiva, é fácil dizer “Eu teria resistido. Eu teria me manifestado”. Mas até que você viva em um sistema assim, até que você se encontre numa situação similar, você simplesmente não pode ter certeza.

Se você gostaria de ler um relato de uma vida na Alemanha nazista, eu recomendo o romance de Anna Seghers The Seventh Cross. Anna Seghers (Netty Reiling) era de uma família judia em Mainz. Grande parte do seu trabalho consistem em lançar um olhar crítico na sociedade. Ela se juntou ao Partido Comunista Alemão em 1928, e se tornou um membro proeminente da esquerda política e da cena literária na República de Weimar. Por esta óbvia razão, ela estavam em perigo iminente quando os Nazistas chegaram ao poder, e ela e seu marido saíram da Alemanha em 1933.

Nos anos seguintes, sua família viveu em Paris, onde ela ainda recebia cartas de amigos e família. Foi lá que ela começou a trabalhar em The Seventh Cross, cujo subtítulo é “Um Romance da Alemanha Nazista”. Ela deve ter terminado o romance entre 1938 e 1939, tentando encontrar uma editora para ele. Quando a Guerra eclodiu, ela e seus filhos tiveram que fugir de Paris, enquanto seu marido era mantido num campo de internação. Eventualmente, ela conseguiu uma permissão para residir no México, o que significava que seu marido estava liberado para deixar o campo. Eles saíram de Marseille, que era a única porta de saída para refugiados que queriam deixar a França (neste ponto ela não levava mais nenhum manuscrito do livro consigo).

A jornada de sua família não os levaria ao México diretamente, mas a várias entradas diferentes. Em um determinado momento, eles foram parar em Ellis Island. E não foram liberados a entrar nos EUA. Sua situação neste momento era desesperadora. Entretanto, eles foram liberados a receber visitas, e uma delas foi do agente de Segher, Maxim Lieber, que trazia uma com um contrato de publicação com a Little, Brown and Company para a tradução para o inglês de The Seventh Cross. O romance foi publicado nos EUA em outubro de 1942. Enquanto isso, Seghers e sua família foram finalmente liberados a deixar Ellis Island e viajar para o México. A primeira edição alemã do livro foi lançada em 1943 pela editora mexicana El Libro Libre.

The Seventh Cross se passa na metade dos anos 30 e conta a história de sete homens que conseguiram fugir do campo de concentração de Westhofen (o qual se baseia no campo de concentração de Osthofen, que existiu de 1933-34 e se situava acerca de Worms). O comandante do campo tinha sete cruzes erguidas no jardim principal com o intuito de amarrá-los (ou seus corpos) a estas cruzes.

O personagem principal é Georg, um dos homens que fugiram do campo. Mas o romance não fala apenas deste voo de fuga, é também sobre todas as pessoas diferentes que Georg conhece; pessoas de todas as classes sociais, pessoas que estão preparadas para ajudá-lo direta ou indiretamente e pessoas que adorariam denunciá-lo. Esta história é também sobre os velhos amigos de Georg e sua família. Quando ela fica sabendo deste voo dos sete homens de Westhofen, muitos deles se perguntam se Georg poderia ser um dos sete. Como resultado, muitos deles tentam encontrar meios de ajudá-lo de alguma forma, enquanto outros – notavelmente seu irmão caçula, que ele ama muito – estão determinados a entregá-lo. Quanto mais tempo a cruz de Georg permanece vazia, maior se torna o desafio que ele representa ao regime nazista.

The Seventh Cross é um romance brilhante e emocionante que nos presenteia com um cenário detalhado de como era a vida na Alemanha nazista em 1930. Definitivamente, vale a leitura!

E isso é tudo. Obrigado a todos que me acompanharam nessa thread.

P.S.: Em caso de alguém estar se perguntando, estou assustada pra caralho porque estamos vendo a ascensão de partidos de direita e desta retórica em muitas partes da Europa (inclusive a Alemanha com o assombroso AfD), assim como um movimento em direção ao autoritarismo em vários países do Ocidente. E existem alguns dias em que parece que a escuridão está tomando conta de tudo e prestes a nos engolir.

Por que Rogue One é melhor que O Despertar da Força

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS DE “ROGUE ONE” E “O DESPERTAR DA FORÇA” (É BOM AVISAR ANTES QUE HAJA ALGUM MIMIMI)

Imagine que você fosse um personagem do universo de Star Wars. Um dia desses qualquer, algum outro personagem começa a contar uma história dizendo “Ei, já te contei como a Aliança Rebelde conseguiu descobrir um meio de destruir a Estrela da Morte? Então, havia um engenheiro chamado Galen Erso…”. Pois é exatamente isso que é Rogue One – Uma História Star Wars. É uma história dentro de outra. E é por isso que funciona perfeitamente bem. Melhor dizendo, não é só por isso, mas o fato de levar o espectador a este nível de compreensão é um belo ponto de partida. Toda a atmosfera de Star Wars está ali – e apesar do enredo estar diretamente ligado aos acontecimentos principais da saga, o espectador se conecta mesmo com este universo é por meio das várias referências, características dos personagens e dos detalhes que compõem a obra.

Ora, e O Despertar da Força não tem nada disso? É claro que tem, é um bom filme, mas ele é mais como a história sendo vivida. Sabe quando estamos contando para alguém sobre algo e aquilo parece muito mais importante/divertido/triste do que realmente foi? Eu diria que é isso que faz a diferença neste caso. Bem, para explicar melhor meu ponto de vista, podemos enumerar algumas razões:

1. O Despertar da Força é a primeira parte de um novo arco

Este filme funciona como uma introdução ao novo arco da saga. Ainda não sabemos as reais intenções de alguns personagens e nem como outros irão se comportar ao longo dos próximos filmes. É como se estivéssemos lendo um livro e, ao chegarmos a um terço de suas páginas, alguém perguntasse “este livro é bom?”. Já Rogue One é uma história acabada, o que contribui para a sensação de satisfação ao sairmos do cinema. Conhecemos os personagens e suas motivações, vimos qual foi o desfecho daquilo tudo. E sim, o final sempre importa (vide Lost, por exemplo).

2. Os personagens de Rogue One são mais interessantes

São personagens mais cativantes e com os quais nos identificamos mais. Como não se comover com o monge cego que tem a Força quase como uma religião? Como não sentir a dor que traz consigo o capitão Cassian? E o androide K-2SO? O melhor robô de toda a franquia! O seu jeitão “sincericida” proporciona excelentes piadas ao longo do filme.

Felicity Jones, como a protagonista Jyn, vai muito bem ao representar a força e a personalidade de sua personagem. O elenco, aliás, se sobressai, com destaque para o ótimo Forest Withaker, um extremista rebelde. O elenco de O Despertar da Força também é ótimo, o que seria um “empate técnico” neste quesito.

3. Os extremistas rebeldes liderados por Saw

Achei essa abordagem muito interessante. As ações do rebelde Saw Gerrera no combate ao império se assimilam a ações terroristas, coagindo prisioneiros e realizando ataques em plena cidade. Ou seja, não é porque estão do lado certo da história que suas atitudes não devem ser questionadas. O radicalismo por si só corrompe a causa.

Outros episódios da saga trazem alguns questionamentos morais e até políticos, algo que não é visto no episódio VII.

4. A aterrorizante Estrela da Morte

Não seria exagero dizer que o grande vilão de Rogue One é a Estrela da Morte. Em O Despertar da Força a Estrela da Morte 2.0 destrói vários planetas de uma só vez e ainda assim não nos impressiona; neste filme a direção tomou uma excelente decisão ao colocar em primeiro plano o efeito devastador da destruição provocado pelo raio mortal, assim como o enfoque para a arma em si, dando a ela uma aparência ainda assustadora. Sua figura sombria vista pelos habitantes nos céus da Galáxia emana o olhar do próprio Darth Vader. E por falar nele…

5. Darth Vader

Aquela cena é melhor que o episódio I inteiro.

Se o nível de qualidade for mantido, o filme solo de Han Solo (eu não poderia perder a chance de escrever isso) tem tudo pra ser mais uma bela “história Star Wars”. Pois Rogue One mostrou que este universo é tão grandioso quanto a Força existente nele.

E você, concorda comigo? Deixe sua opinião nos comentários!

P.S.: Enquanto escrevia este texto, soube da notícia da morte de Carrie Fisher. A mais corajosa das princesas só ganhou vida graças ao seu carisma e personalidade. Que a Força esteja contigo, Carrie.

O dom de decepcionar

Desde pequeno eu fui levado a crer que deveria ser o melhor em tudo. Meu ego carregava consigo um revólver calibre 22 carregado de arrogância e insegurança, apontado o tempo todo para minha testa, logo aos cinco anos de idade. Contribuía para isso o fato de que eu aprendi a ler e escrever sozinho, logo, achava que era superior às outras crianças.

Que fique claro que meus pais não encorajavam essa atitude, de jeito nenhum. Acho que era difícil que percebessem, até. Aliás só não devo ter sido uma criança mais chata porque eles me transmitiam valores muito importantes. Mas uma personalidade forte é uma barra de aço e é preciso um calor humano próximo do sol para derreter.

É óbvio que eu não era o melhor em tudo. Um craque na escola, com a bola… nem tanto. Ruim em esportes, em geral. Isso me frustrava. Bom de briga? Tanto quanto o Chapolin. Isso me chateava também. Ah, mas você devia ser um cara boa praça. Bem…

Eu era tímido e inseguro. Minha personalidade veio com o botão da autoconfiança quebrado. E resolvia compensar disparando o tal calibre 22 pra todos os lados. Eu sempre tive bons amigos e agradava a uns e outros. Mas bem lá no fundo, suspeito que é porque eu queria ser bom até nisso.

Ora, normal, toda criança/adolescente sente necessidade de afirmação. De se inserir no grupo, de fazer parte da rodinha, de ser convidado para as festas, enfim, ser descolado (ainda usam essa gíria hoje em dia?). No meu caso, isso não era genuíno porque eu na verdade queria mesmo era ser quase perfeito (eu era ruim de bola, né).

Enfim, chego à vida adulta e com ela, problemas de verdade surgem no caminho, a aventura prestes a começar. Agora uma vida social é necessária, e como vocês podem ver pela minha fase de treinamento, os traumas das relações são fulminantes como golpes de um mestre de kung-fu. E isso me frustra, muito.

Mas dessa vez a frustração é genuína. Porque a maturidade é uma companheira muito didática. Ela mostra que um carinho, um gesto de amizade ou um sorriso sincero dão tanto prazer quanto um 10 em uma prova de matemática. E passo a dar cada vez mais valor a isso. Pra piorar, esta quimera de emoções e estranhezas, que possui RG e CPF, desenvolveu ainda uma habilidade especial, a mãe de todas as frustrações psicológicas: o dom de magoar as pessoas que gosto.

Ah, você tá exagerando. Não, não estou, porque eu já ouvi isso de alguém. Que tinha tido sim, toda a razão ao dizê-lo. E poucas vezes na vida eu havia sido tão estúpido. E com essa declaração eu quebrei meu espelho da verdade e precisei arranjar outro, adequado ao meu novo mundo. Era preciso melhorar, por uma questão de sobrevivência.

Bem, de lá pra cá eu posso dizer que evoluí bastante, mas essa habilidade é como um vício e volta e meia vêm as recaídas. E puta merda, dói demais. É como ser atingido por um raio no peito. Por 72 horas seguidas. É muito pior que ser magoado pelos outros, porque com outra pessoa você vai lá, desabafa, discute, resolve. Comigo mesmo eu até faço isso, mas não tem o mesmo efeito. Meus ouvidos já sabem o que vou dizer. As palavras perdem impacto.

E este texto seria mais uma estratégia nesta batalha contra eu mesmo, pois percebi que a escrita é um ótimo antídoto contra minhas toxinas emocionais; ao me expor assim deixo a cara pra apanhar de quem já feri um dia, espero deixar o saldo zerado. Assim também deixo evidente que nada foi proposital, calculado, já sou errado de nascença. Aqui peço perdão à minha família, ao meu ex-sócio, minha ex-namorada, alguns amigos, pessoas com que trabalhei e mais recentemente, por palavras equivocadas ditas em um sábado à noite. Pois é, enquanto escrevo estou há menos de 24 horas “limpo”.

Há ainda um outro propósito, mostrar que nem tudo está perdido. Talvez muita gente se identifique com a minha história. Para estas pessoas eu digo: não se cobre tanto. Perdoe-se, ria de si mesmo. Saiba que somos todos seres imperfeitos e busque as alternativas mais eficazes para superar e suprimir seus erros. Eu, por enquanto, vou encontrando formas de construir meu para-raios, já que nem todos os dias são de sol.

 

Mudança

Entre as piores coisas da vida, como chutar o canto do sofá com o mindinho do pé, perder o ônibus, perceber que acabou o papel e, enfim, muitas outras, podemos considerar fazer mudança em dia de chuva parte desse rol, certamente. Alberto diria que está certo, com um aceno de cabeça e uma coçada no queixo, como sempre faz quando concorda com algo. Lá estava ele, com as roupas molhadas prestes a terminar a sua, olhando o céu despejar sua ira em forma de água, naquela tarde de quinta. Cada trago no cigarro era uma descarga de fumaça em seus pulmões e milhões de outras elétricas em seu cérebro, a fim de acompanhar a velocidade com que o pensamento ia e vinha.

Parado em frente ao prédio onde vivera por quase seis anos, esperava que a tormenta parasse, ou pelo menos se tornasse chuva leve, para que pudesse levar as últimas caixas para o carro, que teve que ficar estacionado um pouco longe por falta de vaga. Essa talvez fosse a grande desvantagem daquele prédio. Gostava dali, era uma boa localização, mas não tinha garagem. Agora, sozinho, já não fazia sentido continuar ali e junto com outras coisas, se faziam as razões pelas quais estava se mudando. Mas essas outras coisas eram basicamente lembranças e estas os corretores de imóveis não incluiriam no aluguel, então tudo bem.

Não demorou muito até que a chuva diminuísse e Alberto subisse ao apartamento para finalmente recolher as caixas. Subiu os degraus depressa, numa corrida contra o tempo, ou melhor, contra a chuva, mas quando chegou à porta se conteve. Ficou por alguns segundos contemplando-a. Na pele aquela estranha sensação de quando estamos nos despedindo de alguém. Não, não poderia simplesmente deixar aquele apartamento com tanta pressa, era preciso dizer adeus de maneira digna.

Alberto entrou, deu alguns passos, enfiou as mãos nos bolsos e ficou ali, imóvel, olhando, escutando as vozes roucas das paredes sujas e desgastadas pelo tempo. “Foi culpa sua”, repetiam. Não era muito lisonjeiro da parte delas, mas depois de tudo que presenciaram ali nos últimos anos, era só o que sabiam dizer. Ele então parou de prestar atenção nelas por um momento e fixou os olhos na janela, do mesmo jeito em que estivera uma vez há poucos meses, quando percebeu que deixaria aquele apartamento em breve. Aquela janela foi mais complacente e apenas ficou em silêncio, fitando-o.

Seguiu para os outros cômodos como se quisesse dizer adeus a cada um. A cada rodapé, a cada grão de poeira no chão, a cada rachadura encontrada, uma porção de memórias, segredos, olhares, carinhos, risadas, palavrões, rancores e dores surgiam repentina e implacavelmente, imitando os relâmpagos lá fora. Aliás, como haviam rachaduras! Com todos os móveis, com as pessoas, com a rotina, ele nunca havia notado que eram tantas (e tão grandes). Pois eram, ele nada fez para impedir que progredissem, elas tomaram conta de algumas paredes e do teto, agora era tarde.

Quando foi entrar no antigo quarto, perdeu a coragem. Ali ainda estavam guardados provavelmente os melhores e os piores momentos dos últimos anos, as poucas vezes em que disse sim, as tantas vezes em que disse não. Sim ao prazer, à entrega, ao presente; não ao perdão, ao respeito, ao futuro. Decidiu então não entrar e fechar a porta.

Enquanto se encaminhava para a porta de entrada, ouvindo o eco produzido pelo barulho dos próprios passos, teve medo. Aquele som era triste e desolador. A solidão abraçou-o mais forte que nunca. Alberto, que sempre foi osso duro, pela primeira vez desde a separação, chorou. Escorou-se na parede, de frente para a porta de entrada e desabou, sentando-se no chão. As paredes agora choravam junto.

A porta tinha ficado aberta e algum momento depois dona Denise, senhora que morava no 303, estava saindo quando notou o penoso fato. Aproximou-se da porta.

– Tá tudo bem, meu filho? Tá indo hoje?

– Tudo bem, dona Denise, estou pegando as últimas caixas – disse Alberto, enquanto se levantava e limpava as lágrimas do rosto.

– Que bom! Mudança é difícil mas é preciso.

– Muito difícil! E com essa chuva toda ainda…

Dona Denise então se aproximou dele e disse com a voz suave e terna de quem possui a sabedoria de uma biblioteca de Alexandria:

– Não estou falando do apartamento, meu filho.

E saiu, fazendo um aceno com a mão esquerda.

Alberto engoliu o resto do choro, aquelas palavras, fez um aceno de cabeça e coçou o queixo. Segundos depois, pegou as coisas, virou-se e com um suspiro, soltou um “adeus” quase audível. Logo em seguida, saiu, sem olhar para trás.

A Tela no Texto – Que Horas Ela Volta?

Seja como for, uma obra de arte sempre tem como objetivo transmitir sensações a quem interage com ela. O Cinema, ou a Sétima Arte, nos apresenta muitas vezes obras nas quais um dos objetivos é causar incômodo ao espectador, seja através de excessos visuais (como A Paixão de Cristo de Mel Gibson), de suspense (o final de O Silêncio dos Inocentes), ou até mesmo através de humor (a primeira vez de Jim em American Pie). Há várias formas de fazê-lo e uma delas é utilizada com brilhantismo por esta obra nacional de Anna Muylaert: através de uma crítica social.

Sim, a desigualdade social no Brasil é um problema que todos conhecemos e com o qual convivemos, diariamente. Entretanto, não há melhor expressão que defina esse problema como o “elefante na sala de estar”. O “elefante” está ali, incomoda, mas o que todos fazem é ignorá-lo na ilusória esperança de que ele desapareça, ou seja, de que o problema se resolva por si só.

Aqui o elefante é representado pela relação servil entre uma empregada doméstica, Val, e seus patrões, Bárbara e Zé Carlos, além do filho do casal, Fabinho. A dinâmica dessa relação já fica exposta de maneira muito inteligente logo no início: a primeira vez que vemos os personagens do casal é pela fresta da porta da cozinha entreaberta e suas primeiras falas são ordens a Val. Já Fabinho, que foi praticamente criado por ela, uma vez que a mãe sempre foi ausente (“Que horas ela volta?”), desenvolveu um laço maternal, compartilhando coisas do seu dia-a-dia e suas angústias e por isso é apresentado ainda criança, na época em que Val deixou o Pernambuco para ganhar a vida em São Paulo.

O conflito surge quando Jéssica, filha de Val, decide ir a São Paulo para prestar vestibular para Arquitetura. A princípio sendo tratada de maneira amigável pela família com quem a mãe mora (chegando, inclusive, a ser servida por ela), esta relação muda quando Jéssica passa a confrontar o tratamento dispensado a Val. Todavia, suas críticas são muito mais direcionadas ao comportamento passivo da mãe, que aceita seu papel com uma humildade lamentável, a ponto de dizer que “nasceu sabendo” como deve se portar diante das humilhações sofridas, como se fosse uma vítima do destino por ter que se submeter a este tipo de trabalho.

E é de maneira extremamente autêntica que Regina Casé encarna esta figura tão adorável. Sua atuação não encontra exageros e é impressionante ver como ela consegue manter a doçura e a simplicidade vivas em seus olhos e gestos mesmo em situações de desconforto ou angústia. Como se não bastasse Regina ainda protagoniza uma das melhores cenas do Cinema em 2015, envolvendo a piscina da casa, marcando um momento de evolução de Val e arrancando lágrimas até de espectadores menos sensíveis.

Aliás, essa piscina é uma dos vários simbolismos que a direção utiliza, sempre de maneira pouco sutil, vale lembrar (a ideia aqui é causar incômodo), para representar o contraste social presente no filme. Há ainda um plano frequente envolvendo uma escada (ascensão social), as camisetas de times norte-americanos ou de cidades estrangeiras que Val usa (claramente descartadas pela família) e um jogo de xícaras preto e branco que reforça esta ideia de contraste.

Contudo, Que Horas Ela Volta? também é um interessante estudo de personagens, e outra ideia abordada no filme são as relações de Jéssica e Fabinho com suas mães. Ambos possuem uma imensa dificuldade em manifestar afeto, uma vez que foram criados por outras pessoas. Aqui a obra traça um ótimo paralelo, pois, uma vez que Val tenta convencer Jéssica de que não teve outra opção, seu arrependimento é evidente ao tomar certa atitude mais tarde. Ora, se Val, mesmo em condições desfavoráveis, em busca de melhores condições de vida “abandona” a filha mas é capaz de reconhecer isso, Bárbara prefere transferir a culpa ao filho, chegando a perguntar várias vezes se o filho está drogado como forma de responsabilizar seu comportamento.

Se Bárbara e Val representam papéis muito mais presentes em uma sociedade de décadas atrás, os personagens de Jéssica e Fabinho podem ser vistos como a forma da juventude atual encarar o problema da desigualdade. Fabinho, mesmo demonstrando carinho por Val nunca se coloca na posição de defendê-la, sempre se mostrando mimado e infantil. Ele seria então a parcela que prefere ignorar o “elefante”, enquanto Jéssica, segura de si e inteligente, representaria aqueles que já compreendem a necessidade de condições mais igualitárias e do fim de uma hierarquia baseada em status social.

Naturalmente, nosso país ainda está muito longe disso. Porém, hoje a filha da empregada doméstica pode se sentar ao lado do filho da patroa numa sala de aula de uma universidade (se ele conseguir). Val diria que as coisas estão diferentes, mas diria isso com um sorriso que só quem tem amor e otimismo de sobra pode dar.